Toda dor é por enquanto

A vida é coisa pra gente valente. Gente que tem a capacidade de se reinventar. Triste é a existência daquele que diz saber todas as coisas ou julga te-las conquistado. E quando me refiro a gente valente, não falo daqueles que gritam aos quatro cantos exaltando seus feitos notáveis batendo no peito dizendo o quanto são fortes. Falo dos(as) que choram escondido suportando o peso de ter que trabalhar cedo pouco depois de ter deixado o filho pequeno na creche, daqueles(as) que precisam ser criativos na hora de vestir todos os filhos em meio a uma situação de desemprego, dos(as) que sempre tiveram uma condição de vida favorável e sorrateiramente foram roubados de sua segurança financeira, mas que não tiveram vergonha de ir à luta e recomeçar a trilha, dos(as) que foram traídos, daqueles(as) que viram o seu castelo desmoronar bem na frente, daqueles(as) que não tem vergonha de simplesmente dizer: “tá doendo”.

A dor e o sofrimento são incógnitas subjetivas passiveis de todo o tipo de avaliação e diagnóstico, das mais racionais às mais místicas, porém em um quesito todos temos de concordar, elas parecem eternas. Só quem está no “olho do furacão” pode, de fato, sentir o que talvez ninguém mais esteja sentindo, ainda que as circunstâncias sejam semelhantes, nós somos diferentes e lidamos com a vida de maneira diferente. Toda dor é legítima. Não existe uma cartilha sobre “o que” devemos sentir no dia ruim ou “como” devemos sentir, nós apenas reagimos à adversidade amparados pelo nosso temperamento, nosso “background”, nossa criação e contextos específicos. A morte é morte, mas sua concepção bate diferente em mim do que em qualquer outra pessoa que já tenha se deparado com ela.

E o que fazer diante de tal constatação se não posso vencer o infortúnio de um dia sofrer?

Henri Nouwen nos dá algumas indicações, dizendo: “Agradeço não ter sabido de antemão o que Deus havia reservado pra mim. Agradeço também, pois, com o sofrimento, algo de novo se abriu dentro de mim. Tenho uma vocação diferente agora. É o desejo de falar dessa abertura dentro de situações na minha vida e na de outros, também incerta. (…) Sei agora que devo falar da eternidade no cotidiano; da alegria duradoura na alegria passageira de nossa breve existência neste mundo; da casa do amor na casa do medo; da presença de Deus nas dimensões humanas”. (A volta do filho pródigo, p.25)

Ao invés de lutar vorazmente contra algo que é inevitável, tentar perceber os traços da eternidade com a pedagogia da dor.

Parece duro tentar organizar em nossa mente como tudo isso é possível, porém talvez seja a verdadeira libertação de que todos nós precisemos para ressignificar os nossos dias. Não como aqueles que caminham na direção da morte como um fim, mas que entenderam ser justamente ela a origem a todas as coisas e através de sua ação, a possibilidade da ressurreição.

Perceber que a vida em sua integralidade é um dom, são para aqueles que de maneira revelada sabem que são parte de algo muito maior do que sua mera existência nos dias aqui e não me refiro a teólogos e estudiosos de academia formal, falo dos sensíveis que dão graças pelo pouco, que repartem o pão que é nosso mesmo com fome e que não conseguem entender uma vida que não se complete no outro.

Sem negar a dor, concebendo-a como cenário próximo se ainda não chegado, saber que ela é apenas por enquanto, até que a luz do dia brilhe com o seu consolo e ao final, tendo experimentado todos os contornos da existência, poder sorrir feliz, “apesar de…”

Deus nos conquiste para Si.