Uma ilusão chamada “ano novo completamente diferente”

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Nesse início de 2016 me faltou a “ilusão”. E, claro, você sabe do que eu estou falando. Refiro-me ao sentimento em que todos somos inundados nas preparações das festas e ceias de fim de ano, ficamos cheios de esperanças e renovamos as expectativas acreditamos que o ano subsequente  será extremamente diferente do ano anterior.

Acredite, eu não tive nem coragem de fazer promessas, porque sei que não poderei cumprir. Não prometi começar uma atividade física, perder peso, ler uma quantidade maior de livros (ou alguma obra literária específica), nem mesmo fiz como no ano passado, me comprometendo a ser alguém de mais oração, fervor espiritual, sinceridade com Deus, ou qualquer coisa do tipo.

Alguns amigos me pediram para tomar cuidado com a depressão. Outros me chamaram de pessimista. E ainda, outros, como sempre me consideraram, disseram que sou apenas um reclamão, e por isso o otimismo inerente do réveillon não tinha chegado ao meu coração.

Discussões te levam onde mesmo? 

Tenho tido dificuldade de rotular os outros, tendo na verdade, uma inclinação e incessante busca pela compreensão. Tenho procurado ser, o quanto me for possível, empático ao coração daqueles que tenho a oportunidade de ouvir, de olhar nos olhos e de me relacionar com eles. Tenho tentado, verdadeiramente, ter menos razão para ter mais amigos. Não ter menos amigos, para mais vezes, ter razão. Me aquieto diante de opiniões, mesmo que esdrúxulas, sem conteúdo, senso comum, para que prevaleça um momento gostoso, uma conversa tranquila e amigável. Não importando mais, pelo menos ao meu coração, estar certo, mas sim, e principalmente, estar junto, crescer junto, amadurecer junto.

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No entanto, com essa perca da ilusão de um “ano novo completamente diferente”, percebi que duas coisas podem estar acontecendo nesse momento:

  • Estou vivendo um momento em que o amadurecimento está acontecendo em mim.
  • Na verdade me tornei um chato, acomodado e conformado, aquilo que mais temia, foi o que me tornei.

Se a primeira alternativa for verdadeira, e o que Deus está realmente me proporcionando – e na verdade, à todos aqueles que estavam a minha volta- um amadurecimento, e por conta disso, estamos escolhendo melhor sobre o que sonhar, planejar, sofrer e se envolver. Estamos largando sofrimentos passageiros e optando por sofrimentos que nos valham a pena e abrindo mão das discussões que só geram mágoas e escolhendo discutir aquilo que gera transformação e arrependimento. Estamos sendo presenteados, por meio da graça de Deus, com discernimento sobre onde, quando e como agir em cada situação difícil que estamos lidando e ainda mais sobre o que vale a pena ou não sofrer.

Agora, se for correta a segunda alternativa, está tudo acabado aqui. E falo isso de verdade. Já podemos parar com todo o movimento a respeito do evangelho. Se o empenho, a disposição, os sonhos, o vigor, o desejo de transformação, o ardor no coração, o serviço aos irmãos e o amor ao próximo não forem maior que a nossa compreensão de realidade, mesmo que essa seja de sequidão espiritual, falta de engajamento em missão, falta de discernimento na orientação, deserto de oração, conformismo com pecados, conveniências políticas e religiosas, covardia em relação à verdade, falta de amor e zelo pelo trabalho que é do Senhor e etc.

Se o nosso amor não superar tudo isso e mesmo que conscientemente não nos enchermos de uma “ilusão” vinda da fé, não entendemos o evangelho porque Jesus era um carpinteiro com uma mensagem de contra cultura, que dadas as devidas diferenças, pessoas como Che Guevara e outros ditos revolucionários também tentaram trazer, mas obviamente não tiveram o mesmo impacto.

Não entendemos o evangelho

Não entendemos o evangelho. Jesus era um carpinteiro, e por isso era pobre. Apesar disso, não fez diferença para que a história da humanidade fosse abalada com seu ensino que não tinha muito a ver com autoridade e conveniência humana, mas autoridade e confirmação da ação divina.

Não entendemos o evangelho porque Jesus era de uma cidade que não era referência para nada. Aliás, comentavam sobre ele: “pode vir alguma coisa boa daquele lugar?”

Assim, o filho de Deus, não tinha nada de exuberante, e nem mesmo belo para o motivar a fazer o que veio fazer. Jesus não era um altruísta sem fim.

A paixão que o evangelho provoca no nosso coração, é fogo que arde e grita, denuncia e aponta, mas silencia e aquieta, teme e reverencia, crê e se submete. O evangelho é o poder de Deus que gera gente como Jesus de Nazaré, que com toda a sua subversão, também nos ensinou o que era submissão.

Abro parênteses. A submissão de Jesus era única e exclusiva à vontade de Deus e não às conveniências religiosas. Contudo, existem episódios relatados nos evangelhos, que Jesus de Nazaré manda o beneficiado do milagre pagar o oferta que Moisés orientou na lei. Assim, Jesus se apresenta nem sempre como choque, mas como alguém que provoca a libertação não na base da confusão, necessariamente. Caso a confusão seja necessária, que ela ocorra, mas quando puder ser evitada, melhor. Fecha parênteses.

Um ano que nem parece novo

Bem, o ano está só começando e é uma boa chance de você olhar para a falta de ilusão que, talvez, tenha lhe cercado nesse início de ano, e aproveitar para encontrar, entender e realmente se engajar na realidade que você vive. Realidade, que muitas das vezes, foi você quem não quis enxergar.

O filho de Deus se fez carne, não com uma premissa e prerrogativa de poder, exuberância e dominação, mas com a prerrogativa de fraqueza, simplicidade e serviço. Um começo de ano é um bom momento para se decidir de que lado está, ou melhor, como “brincar” de viver.

A vida de verdade para gente de verdade só acontece na simplicidade, onde se encara a realidade, se submetendo a Jesus na sua simplicidade e optando sempre por seguir em favor da humanidade.

Minha oração e desejo é para que você se encoraje na falta de paixão, pedindo arrependimento de coração, por não conseguir compreender ao Nazareno, que nos deu exemplo caminhando com as prostitutas, os pobres e os humildes, também confrontando e provocando dúvidas nos religiosos, mas se submetendo ao Pai e estabelecendo o Reino na Terra.

Assim, a esperança se renova em seu coração. Por daí, então, você não ser mais o sujeito da ação, mas alguém que age sem perceber que age como mãos de Alguém que está reconciliando consigo o mundo.

Faço novamente o convite: vamos juntos para o estouro?

Em amor e pelo amor.