Uma longa jornada até compreendermos a graça

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Atendi, um dia desses, um senhorzinho muito simpático, que procurava a emergência com dor nas costas. Como sempre, os médicos e os outros alunos passam para ver todos os pacientes, e no clima pesado da emergência, vamos um brincando com os outros e com os pacientes.

Conversa vai, sorriso vem. O clima descontraído ajuda a minimizar a dor daquele lugar. E com esse senhor foi a mesma coisa: sorrimos, brincamos, conversamos. Até que descobrimos que o seu acompanhante, na verdade, era um policial que nos avisou que iria estragar o nosso divertimento. Perguntou, então, ao meu paciente por quantos anos ele deveria ficar preso, de acordo com sua sentença. ‘60 anos’, ele respondeu. Imaginei, na hora, o que alguém faria para ficar preso por tanto tempo. Ele, então, respondeu que havia violentado as duas netas pequenas e agora ‘estava pagando pelo que fez’.

Geralmente não percebo se sou expressiva, mas nesse momento senti cada músculo da minha face se enrijecendo, fechando o sorriso, e enrugando minha sobrancelha, num olhar julgador. Confesso que não queria mais ter que lidar dele. Olhei ao redor e percebi que não estava sozinha. A descontração fugiu e nos lembramos que estávamos numa emergência. O médico atendente disse que iria solicitar alguns exames e voltaríamos com as respostas. Desprezei aquele homem, naquele momento. Achei que ele era indigno da minha dedicação e meus cuidados, embora fiz isso da melhor forma que pude, não com alegria, mas porque era a minha obrigação atendê-lo com excelência.

Adolf Hitler e Madre Tereza de Calcutá: iguais?

Imagine, por um segundo, se Cristo, que conhece todas as nossas falhas e mais secretos pecados, fizesse a mesma coisa comigo ou com você. Você, com certeza, já ouviu que para Deus não existem pecadinhos ou pecadões. Todos nós pecamos e carecemos da Graça, na mesma medida, embora muitas vezes seja difícil reconhecer isso. Não me lembro onde exatamente, mas recentemente ouvi uma comparação que me marcou demais. Ela fazia um paralelo entre Adolf Hitler e Madre Tereza de Calcutá.

Parecem dois exemplos completamente opostos, não é mesmo? Um demonstrando com sua vida o quanto o ódio pode causar destruição e a outra mostrando o quanto o amor pode construir e ajudar aos outros. Apesar de estarem em nossas mentes de lados adversos, ambos estão igualmente condenados por seus pecados, como eu e você. Não há nada neles mesmos que seja capaz de produzir salvação e com isso, estão equidistantes de Cristo.

Não estou aqui querendo justificar quem faz algo mal com outra pessoa, já que acredito que cada erro nosso nos trará inevitavelmente consequências com as quais teremos que lidar. Mas me pergunto se não temos estimado demais a nós mesmos, acreditando que por conhecermos a Deus, frequentarmos uma igreja ou fazermos boas obras, estamos em um patamar mais elevado do que as outras pessoas que não fazem isso.

O nosso problema é pensar que a Graça nos torna melhores do que os que ainda não conhecem as Boas-Novas, quando na verdade, ela deveria no constranger a reconhecer nosso estado miserável, que em Cristo foi justificado.

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Graça, graças a Deus! 

A graça de Deus em nós, deve tornar-nos misericordiosos. É só através dela que somos capazes de dar a outra face, de não pagar o mal com o mal ou de não nos perdermos em nosso próprio ego. Ela é o que nos faz compreender que dependemos totalmente do Pai, porque em nós não há nada de minimamente bom ou justo. Ai, de nós! Ai, de nós, se pensarmos diferente disso. Estaremos tão enganados e perdidos quanto as pessoas as quais julgamos.

O senhorzinho evoluiu bem e voltou para a cadeia em pouco tempo. Tempos depois, recebi a notícia de que ele teve um infarto fulminante e morreu na hora, sem nem ter tempo de chegar ao hospital. Não havia como prever esse evento e não sei o que de dizer sobre isso, além de que a vida de alguém é preciosa demais, mesmo que para a sociedade ela não tenha mais valor por seus erros. Eu também não sou nada, e não sirvo para nada, se não investir tudo o que tenho para anunciar que até para os piores pecados, há redenção e ela se encontra no Cristo Salvador. Essa mensagem é a única coisa boa que há em mim.

Que você seja sábio e aprenda com o meu erro: não julgue se alguém é merecedor ou não, apenas anuncie a Graça, a toda criatura, a tempo e fora de tempo.