A verdadeira troca de peixes por homens

“Caminhando pela praia do mar da Galiléia, Jesus avistou dois irmãos: Simão (mais tarde chamado Pedro) e André. Eles estavam pescando, lançando as redes no mar. Era nisso que trabalhavam. Jesus convidou: “Venham comigo! Vou fazer de vocês um novo tipo de pescadores. Vou mostrar como pescar pessoas, em vez de peixes” Sem ao menos fazer uma pergunta, eles simplesmente largaram as redes e foram com ele.” (Mateus 4.18-20 – versão A mensagem)

E o evangelho vai seguindo a sua trilha inversa, subvertendo a nossa lógica, com Jesus caminhando pela Galiléia. Perceba que quando Ele convida os irmãos Pedro e André, eles estão em plena atividade, exercendo sua profissão, investindo o seu tempo no seu “ganha pão”, e o mestre chega, mas não com o discurso de: “Venham até mim e eu vou fazer de vocês mega empresários do ramo da pesca”, ou: “Me sigam porque no meu ministério vocês serão prósperos e os seus concorrentes vão ter que aplaudir quando virem o tamanho da sua vitória”. Muito ao contrário disso, Ele os chama para um projeto que não tem lá aquele sabor de mel, mas que tem é sabor de sangue.

Quem abriria mão do que está fazendo porque algum desconhecido propõe algo que, a princípio, não trará qualquer tipo de benefício pessoal instantâneo? E pior, a proposta não era nem voltada para eles, mas para outros. Um dia sem pescar representa uma grande perda financeira para um pescador, quem dirá tratar tal prática como secundária na jornada?

Jesus começa a colocar as coisas nos seus devidos lugares, e no Reino do amor o “eu” nunca está em primeiro.

Precisamos assimilar algumas coisas para podermos entender outras. Talvez aqueles homens já tivessem conversado a respeito do sentido das coisas e da vida e se de fato, vieram ao mundo para “ser” o que faziam, pois muitas vezes quando somos perguntados quem e o que somos respondemos de imediato a nossa profissão. Porém talvez nunca tivessem atentado para tal fato, mas quando o Senhor chama, tudo vem a tona e todas as coisas ganham novo sentido.

A questão agora é: o que é ser pescador de homens?

Pense na figura de um aquário com seus peixes coloridos e diversos e todos os seus lindos acessórios e formatos. Agora visualize um grande oceano com uma imensidão de cores, formas, sons e uma população muito, mas infinitamente maior de peixes do que o aquário em questão. Será que Jesus está querendo dizer que eles precisavam evangelizar as pessoas até que se convertessem e viessem para a igreja? Será que a ideia é colocar os peixes do mar dentro de aquários?

Penso que não. Até porque tentam nos vender a ideia de que o aquário é a Igreja, mas a Palavra nos diz que não.

“O Deus que fez o mundo e tudo que está nele, o Senhor dos céus e da terra, não vive em santuários feitos sob medida, nem precisa que a raça humana se desgaste por causa dele, como se ele não pudesse tomar conta de si mesmo. Ele fez as criaturas! Nenhuma criatura o fez”. (Atos 17.24 – versão A mensagem)

“Vocês percebem que são o templo de Deus e que o próprio Deus está presente em vocês?” (I Coríntios 3.16 – versão A mensagem)

Jesus vai muito mais além do que o razoável que sempre ouvimos a respeito da passagem tratada. Quando ele convoca os Seus para serem pescadores de homens, instiga àqueles a quem escolheu a serem agentes da Verdade a todo o povo, aos que pertencem ao ciclo religioso e os que estão a margem de tudo isso, muitas vezes até por não serem aceitos em determinados grupos sociais. É extrair o “verdadeiro homem” de trás das mascaras e defesas, as quais adquirimos e criamos durante o nosso caminhar da vida para enfim Cristo poder ser formado.

O maior exemplo de todos foi o próprio Jesus que constantemente era criticado por se juntar a mesa com publicanos, pecadores, prostitutas e todo tipo de gente indesejada pela sociedade judaica da época. Mas já parou pra pensar que se Ele estava tanto com estes “rejeitados”, estes também gostavam de estar com Jesus? Pense que talvez eles evitassem se deparar com os mestres da Lei e aqueles que “torciam o nariz” quando estavam por perto, afinal seriam outra vez questionados, julgados, ameaçados, mas com Jesus era diferente e Ele era um Rabi (mestre).

Com Jesus eles podiam ser eles mesmos, sem suas máscaras, sem suas desconfianças, sem os seus “tititis”, a presença do mestre trazia segurança a ponto de confiarem em suas intenções e ensinamentos. Cristo foi o maior dos pescadores de homens, aquele que conseguia trazer a tona o verdadeiro homem por debaixo de todas as falsas identidades e prisões, tornando-os iguais apesar das diferenças.

Será que somos assim?

Será que nossa presença transmite tanta segurança e confiança que aqueles que estão ao nosso redor sentem-se livres para não precisar usar suas máscaras? Será que as pessoas se apresentam inteiras diante de nós, sem medo de serem julgadas ou marginalizadas por algo que fizeram, fazem ou farão? Ou será que estamos tão emergidos na frieza dos julgamentos religiosos que quando atentamos para o pecado do outro ao invés de sermos agentes de cura e transformação, somos repelentes à mensagem do Cristo?

“Enquanto caminhava, Jesus avistou um cobrador de impostos. Seu nome era Mateus. Jesus o convidou: “Venha comigo!”. Mateus levantou-se e passou a segui-lo. Mais tarde, Jesus estava jantando na casa de Mateus com seus seguidores mais próximos, e um grupo de pessoas de má reputação se juntou a eles. Quando os fariseus viram Jesus no meio daquela gente, ficaram indignados e foram tomar satisfação com os discípulos: “Que exemplo está dando seu Mestre, andando com essa gente desonesta e essa ralé?” Jesus escutou a crítica e reagiu: “Quem precisa de médico: quem é saudável ou quem é doente? Pensem no significado deste texto das Escrituras: “Procuro misericórdia, não religião‟. Estou aqui para dar atenção aos de fora, não para mimar os da casa, que se acham justos”. (Mateus 9.9-13 – versão A mensagem)

Será que temos, sido de fato, pescadores de homens?

Lembre-se, o convite de Jesus para os dois irmãos foi o de abrir mão da busca por coisas que são estritamente pessoais e lícitas para caminhar na direção de outros, sendo luz, resgatando e trazendo para o topo aqueles que estão perdidos e afogados dentro de si mesmos para que o próprio Cristo seja sua nova identidade.

Que Deus leve nossos pensamentos e intenções cativos para Si e para o outro.

Em nome de Jesus e pelo Espírito! Boa pescaria!