A vida não é final de semana

Seja no culto ou na mesa de um bar,
tem sempre alguém querendo fugir de si.

Conversando com um amigo, notei nele uma ânsia incomodadora pela chegada do final de semana. O motivo veio à tona quando lhe perguntei o porquê daquele desespero. Ele deixou escapulir entre as palavras e dentes uma confissão de que o seu ofício estava o fazendo infeliz e não encontrava mais prazer durante a semana, mas que o salário que recebia era de muito valor, e o fim de semana era um momento que ele poderia pegar tudo que recebia e financiar a extrapolação das emoções junto de amigos, bebidas, camarotes e festas.

Desse modo, ficou evidente seu refúgio que se encontrava na rápida alegria que o fim de semana trazia quando ele finalmente saia com os amigos para encher a cara, falar sobre coisas fúteis e tentar ter um pouco de descontração para aguentar a pesada semana que viria a seguir. A vida dele era contabilizada de fim de semana em fim de semana.

Normalmente, nós cristãos, condenamos a condição de vida desse rapaz e tentaríamos deixar bem claro que somos diferentes. Qualquer igreja que ele fosse teria alguém que se responsaria por colocar nele um título de “ímpio” e provavelmente até o convidaria para ir em um dos nossos “cultos de libertação” para que ele finalmente se livre do vício de fazer dessa vida um estilo de vida e tentaríamos impor sobre ele nossa moral. No entanto, a confissão dele me fez pensar muito mais em nós, que nele.

Até que ponto nós não somos como ele? A pergunta ecoou profundamente em minha mente. A palavra de Deus diz: Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais cheios de hipocrisia e de iniquidade.” Mateus 23:28. Bem, eu te conheço e sei que vai me dizer que não bebe, e que aliás, acha errado este estilo de vida do jovem. Ou então, vai dizer que não tenho direito de comparar a vida em acordo com Deus da vida em acordo com o mundo. Que as duas coisas são diferentes e não tem ligação nenhuma. Mas gostaria mesmo de reforçar a sinceridade e coragem dessa perguntar em nossos corações.

Conheço cristãos que entram nesse sistema mesmo dentro da igreja. Gente que pensa que o fato de irem na igreja final de semana, participar de um culto e depois sair para comer com os amigos o torna diferente do meu amigo não-cristão. A bíblia diz: “Porque em Jesus Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão tem valor algum; mas sim a fé que opera pelo amor.” Gálatas 5:6. Quantos de nós procuramos as nossas igrejas para se sentir mais “limpo” que ele, ou então ficar melhor posicionado no “ranking dos comportadinhos”. No entanto, bem lá no fundo, em quantos de nós a igreja representa apenas um lugar para se descontrair, ver os amigos ou apenas uma parada obrigatória antes de sair pra comer o lanche com a galera?

Se você acha-se diferente do meu amigo, porque que é que quando chega segunda-feira, nós não temos contentamento com nossa vida pessoal, familiar, profissional, e da mesma forma não vemos a hora de estar novamente no ambiente holográfico da igreja, onde todos são supostamente felizes e sem angústias? A palavra de Deus diz que “Não é verdadeiro Judeu (convertido) o que o é exteriormente, nem verdadeira circuncisão ( santificação) a que aparece exteriormente na carne.” Romanos 2:28

Acontece que muitas vezes procuramos a igreja exatamente como meu amigo procura uma balada. Muitas vezes queremos estar na igreja apenas para não ter de aguentar os nossos pais, nossos problemas, nossos relacionamentos mal resolvidos e nossas próprias perguntas. Gostamos de estar entre os crentes, porque alí a hipocrisia mascara a realidade interna da nossa incapacidade, mais ou menos como acontece nos ambientes de uma balada. Gente botando um sorriso no rosto mas com o coração quebrado na tristeza. Gente que não bota uma gota de álcool na boca, mas que é viciado em profecias, visões e frenesis emocionais a fim de produzir um ambiente falsificado.Gente que não sai beijando todo mundo, mas que sua mente é pornográfica no anonimato.

A maioria de nós busca entre a sexta depois das seis da tarde e o domingo à meia-noite uma fuga da triste realidade pessoal que inibe a nossa felicidade. Seja no culto ou na mesa de um bar, tem sempre alguém querendo fugir de si.

Não cometeria essa gafe de simplesmente comparar a igreja com uma mesa de bar sem diferenciar também que podemos fazer diferente. Talvez o meu amigo não tenha a consciência do sistema maldito que ele se encontra, mas nós como iluminados pelo evangelho, precisamos ter a coragem de se ver como somos.

Igreja não é local para fugas, mas sim local onde as verdades deveriam brotar naturalmente e um local onde as fraquezas são escancaradas diante de Deus para que Ele nos cure. A igreja não deveria ser um pano que encobre vaidades, mas um iluminador de entendimento e verdades. A igreja não é uma embriaguez da realidade, mas um hospital para quebrados. Não é uma diversão pra os entediados, mas uma firmeza para o atribulados.

Somos luz e ela só pode evidenciar a verdade, ao contrário das trevas que nos coloca na penumbra do engano. Assim como o sal evidencia o sabor, precisamos ter a coragem de ser quem deveríamos ser, e se apresentar diante de Deus sem querer máscaras, mas com toda a verdade que o evangelho denuncia sobre nós. A igreja não é boteco, mas o boteco pode ser uma boa igreja, uma vez que se não esconde embaixo dos panos a condição de amarguras de cada um. Onde está uma boa igreja de Deus então? O profeta Isaías nos conta:

“Acaso não é este o jejum que escolhi romper as ligaduras da iniquidade, desatar as ligaduras do jugo, deixar ir livres os oprimidos e quebrar todo o jugo? Acaso não consiste ele em repartires o teu pão com o faminto, e recolheres em casa os pobres desamparados? Em cobrires o nu quando o vires, e não te esconderes da tua carne? Então romperá a tua luz como a aurora, e depressa nascerá a tua cura; a tua justiça irá diante de ti; a glória de Jeová será a tua retaguarda.” Isaías 58:6-8

Que o Senhor traga a nós a revelação de quem somos, para que sabendo nossos limites possamos ser sustentados exclusivamente pela sua mão que nos restaura da condição de hipocrisia. E que o Senhor nos ajude a entender que não é onde adorar, mas como adorar. Não é no bar, nem no púlpito, mas em espírito e verdade. (João 4: 24) Amém!

Murillo Leal é jornalista e escreve também no blog Crerpensando.
Contato: mumaleal@gmail.com http://about.me/lealmurillo