Você não é testemunha de Jeová, não né?

Nada contra outras bandeiras religiosas. Nada contra bandeiras e confissões de fé cristãs com doutrinas bem específicas e particulares de cada uma delas. Mas em um dos finais de semana recentes vivi uma experiência engraçada.

Minha namorada faz parte de um ministério de evangelismo e, em um fim de semana que fui visitá-la, o ministério revolveu fazer panfletagem, aquela ideia de passar de casa em casa entregando um folheto, livro ou algo desse tipo para orar e convidar pessoas para um determinado evento.

Na primeira casa em que eu e minha namorada, junto a um grupo de crianças e adolescentes, passamos, uma senhora, aparecendo amedrontada, atendeu-nos da janela. Chamei-a para conversar conosco no portão, ela ficou mais amedrontada e perguntou: “você não é testemunho de Jeová, não né?”

A situação foi cômica, pois não me visto, nem em dias de culto, parecido com um “evangélico”, quanto mais um “testemunha de Jeová”. E minha resposta ao nosso grupo foi: “somos bem, mas bem piores do que eles”.

Quem aqui nunca foi visitado, inconvenientemente, por alguém que professa a fé nas doutrinas dos testemunhos de Jeová, pelos adventistas ou pelos mórmons em uma manhã bem cedo ou em uma tarde em que se está tirando um cochilo?

Incrível como esses, os mórmons, e até mesmo os evangélicos do Brasil fazem questão de desconsiderar tudo e colocar goela abaixo a crença, os comportamentos, a cultura e o ritual religioso que acreditam e defendem sem ao menos considerar a história do outro.

Certamente você conhece alguém bestializado pela religião. Alguém que era uma pessoa incrível, mas que a sua fé a tornou medíocre, de pensamento raso, óbvio e completamente previsível. Essa pessoa que você conhece só é mais uma vítima do proselitismo religioso nacional.

Hoje, no Brasil, “ganham-se almas” de três formas:

  1. Você está indo para o inferno.
  2. Você pode ser um vencedor / filho do Rei / cabeça não calda etc.
  3. Você não precisa continuar a ser e fazer o que você é e faz.

São os discursos em vigência porque não gostamos de usar um presentinho de Deus a nós: nosso cérebro. Não confiamos na fé que professamos e na vida que levamos. Ambas estão desconexas e precisam voltar a ser uma coisa só. Precisamos transformar ou a vida que temos ou o Jesus que cremos.

Jesus, durante seu ministério, ensinou o povo, promoveu reflexão e poder de decisão. Jesus não é o cara do incômodo, mas da possibilidade, do convite.

“Quer andar comigo? Bora!” (Mateus 9:9-14). Indistintamente, pecadores da pior classe (se é que ela existe) e os santarrões (que enganam a si mesmos como se o seu caminho e peregrinação espiritual fossem solucionar o problema da humanidade).

O proselitista, assim como todo religioso, realmente acredita que está fazendo certo, não o faz por mal. O seu problema é a desconsideração do outro, da sua capacidade intelectual, de sua decisão e autonomia para sua própria história.

O proselitismo é uma mensagem de controle, enquanto o evangelho é de liberdade, para a qual Cristo me libertou. O proselitismo é uma mensagem de padronização de comportamento, enquanto o evangelho expande minha consciência. O proselitismo é uma mensagem humana, mas o evangelho é poder de Deus.

Cristo não morreu para fazermos novos escravos de outra religião. Cristo morreu para que a graça servisse de propulsão a uma vida plena com, pelo e no carpinteiro.

A exemplo de Jesus, não leve “folhetinhos”, comportamentos, doutrinas e coisas óbvias a respeito da religião de 40 milhões de pessoas no Brasil. Leve o carpinteiro que amava, andava junto e revolucionou a história humana, respeitando sua integralidade, inclusive de não desejá-lO.

Jesus ama o homem, pois não se considerava alguém superior a ele, mas se esvaziava de si e se relacionava, dando o respeito, acolhimento e ensino que todos mereciam ter.

O proselitismo precisa acabar para que o evangelho possa aparecer. É essa a minha oração, em nome de Jesus.

Em amor e pelo amor.