A cultura do estupro e a conivência evangélica

 

Nunca foi notado, acidentes acontecem, não podemos deixar as tragédias mexerem tanto assim conosco, isso é porque Jesus está para voltar.

Essas respostas me iram sobremaneira em questão aos debates sociais. O comodismo social em relação as mudanças que acontecem na sociedade e a incapacidade do acompanhamento intelectual das transformações sociais por parte da igreja, por muitos momentos me assombram.

Comentava com amigos a tragédia do Rio de Janeiro, do estupro coletivo, onde 30 homens estupravam e publicaram em uma rede social imagens do ocorrido.

Sim, esses meus amigos eram crentes. E não, suas respostas não tinham o que ver com Jesus de Nazaré. Foram respostas do tipo: “Mas não podemos deixar isso nos abalar”, “o que é que você pode fazer”, “o que você queria disso tudo”, “só esperar Jesus voltar”…

Isso me denuncia algo que há tempos luto. A omissão evangélica.

Será que Jesus não teria o que dizer?

Frente a situações de tragédia, nada mais justo que a indignação e a luta contra essa situação, mas será que isso é assim mesmo?

Aderi a foto do perfil do Facebook (eu luto contra a cultura do estupro), mas será que isso é impactante mesmo?

E o pai, que desde sempre ensinou o filho a atribuir xingamentos aos outros com referências femininas?

E a cultura que ensina o adolescente a consumir e não a amar uma mulher?

E o contexto tão reforçado pelas mídias em geral, onde o que se ensina é a busca por um padrão de mulheres para estimulação sexual?

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Será que estamos prontos para falar desse tipo de coisa na igreja?

Não, não estamos. Não estamos prontos porque teremos que rever nossa organização. Teremos que ser honestos e assumir que durante muito tempo, nos acovardamos frente à potências femininas na liderança e que elas fariam um trabalho muito melhor que os homens. Teremos que confessar o pecado de machismo, usurpação de identidade, exploração de gente que foi instrumento de Deus mas não valorizamos por ser mulher.

Não estamos prontos para falar com a sociedade porque teremos que pedir perdão. A tantas pessoas que humilhamos, aproveitamos, sujeitamos a caprichos em nome de um deus machista opressor criado na mentalidade de pastores covardes quanto ao pecado dos ricos que oprimem, perseguem e maltratam suas mulheres. E que não tem absolutamente nada de Cristo e do seu evangelho.

Não estamos prontos, porque o que chamamos de tradicional, na verdade não concebe a mulher como companheira de uma jornada que é dela, com sua história particular, partilhada na vida a dois. Tantos e tantos sermões que foram pregados sobre abandonar a vida, edificar o lar, numa perspectiva de submissão cega ao homem sempre coerente e sacerdote de Deus.

Moça, você não é submissa ao seu marido, você é submissa ao amor!

Quando o famoso e argumento machista de mulher ser submissa ao marido, o marido a que Paulo se refere ama a sua esposa como Cristo ama a igreja. Ou seja, o marido esdrúxulo, egocêntrico e opressor não é marido como marido tem que ser. E se ele é um caso de violência doméstica, maus tratos e abuso, o lugar dele é na cadeia e não na liderança eclesiástica.

E meninas, por favor. Parem com a leitura de ministérios de namoro cristão, e vá ler um bom site de conteúdo social. Que te provoque a pensar, a ser dona do seu nariz (do seu corpo e do seu pensamento). A submissão é a Cristo, e Cristo veio te libertar!

Não se sinta na obrigação de viver o resto da vida com um déspota que abusa de você e sua família por sustentar a casa.

E você, jovenzinho cristão, que tem andado por caminhos machistas, elas ficaram muito tempo em silêncio. Chegou a hora de ouvi-las. Ouça as histórias de gente que se envolveu com gente como você está se tornando e depois você vê de verdade se isso provocará felicidade.

E para reforçar, lugar de mulher é onde ela quiser. Chega de pressupostos que tem muito mais o que ver com opinião de líder espiritual do que o desejo da pessoa. Chega de construto social de tradição, e vamos para o construto da relação, que amadurece, constrói e exerce transformação nos envolvidos, aqueles que amam.

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Estupro é crime. Ninguém tem de se vestir preocupado com a sua segurança. Tem de se vestir preocupado com seu bem estar. E não, um estuprador nunca tem razão e nem motivos.

Não dá para manter os olhos fechados diante de uma cultura que ataca muita gente.

“Se você é neutro em situações de injustiça, você escolhe o lado do opressor” – Desmond Tutu

Em amor e pelo amor.


Em tempo: Tem gente no meio evangélico preocupada com isso!

O MVC apoia o projeto Clube Love! Clube Love é uma plataforma transmídia sobre assuntos de juventude e sexualidade, fruto de um trabalho de mais de 10 anos da ONG Makanudos de Javeh, atuando na área de garantia de direitos da criança e do adolescente, atendendo a mais de 100 mil adolescentes no Brasil, e da ONG Total, atuando nas áreas de educação e cultura, desenvolvendo projetos de conscientização e valores humanitários. Hoje, em parceria, estas ONG’s são, através do Clube Love, um organismo presente no dia a dia de milhares de pessoas na sensibilização a respeito da pornografia e do sexting (envio de mensagens eróticas, com fotos e vídeos de pessoas em situações de nudez, principalmente adolescentes, o que gerou, inclusive, suicídios amplamente divulgados pela imprensa). Com um conteúdo forte, mas tangível, jovem, que margeia o romantismo e, ao mesmo tempo, a denúncia de um sistema que corrompe a liberdade por meio da prisão da pornografia, o Clube Love quer despertar a curiosidade da juventude, trazendo-a para perto, como parte colaboradora desta causa.

Thiago Torres é o idealizador do Clube Love e parceiro do MVC.
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