A síndrome de Jesse Pinkman

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Eu não me aguento! Parece às vezes que as vozes no meio do silêncio de quando não estamos na leitura de um livro, na frente da televisão ou conversando com alguém chegam a irritar mais do que um barulho com os decibéis nas alturas. Ficar sozinho com nossos próprios pensamentos é um exercício pesado e muitas vezes doloroso demais de encarar, afinal de contas, quem gosta de confrontar-se? Quem gosta de fazer uma autoavaliação para enfim chegar à conclusão de que é necessário acertar o passo? Confortável é correr atrás de distrações que roubem a nossa atenção e adiem o choque da nossa realidade.

É duro assumir que nem tudo o que foi planejado saiu conforme o planejado.

E daí vem o momento de solidão, que é rejeitado com unhas e dentes, suprimido pelo Facebook ou qualquer outra coisa que me tire de mim mesmo. Quantos de nós conseguimos sentar no sofá e permanecer em silêncio sem apertar o botão do controle remoto ou de maneira desesperada abrir a Bíblia e tentar arrancar alguma fala de Deus que aplaque nosso caos interior?

Por que não conseguimos transformar a solidão em solitude?

Jesse Pinkman e o barulho

Foi assim com Jesse Pinkman de Breaking Bad, que preferia a “muvuca” de festas intermináveis, regadas a muito barulho e drogas, do que ficar sozinho e ter de engolir-se a si mesmo com todas as suas monstruosidades e, de certa maneira, é assim com grande parte das pessoas que brigam para encontrar sentido nos dias repetidos e mergulhados na rotina das mesmas coisas que se arrastam para frente.

Porém, uma coisa teremos obrigatoriamente que engolir como um pedaço de pão seco sem bebida pra ajudar – o confronto é necessário.

É com ele que esbofeteamos nosso orgulho e, com seu impacto, que vamos à lona, reconhecendo nossa limitação e falta de técnica pra continuar a batalha. Foi no dia que o filho mais novo estava comendo com os porcos que ele percebeu aonde a sua rebeldia o tinha levado e só a partir de então voltou ao caminho onde o Pai o estava esperando (Lucas 15). Entretanto, ele não imaginava ser tratado nas mesmas condições de antes, pois o seu senso de justiça havia sido aguçado pelo confronto que teve consigo mesmo, fazendo-o reconhecer sua indignidade e sua doentia vontade de caminhar em uma trilha de egoísmo.

Nosso maior problema não é bater a cabeça, mas fingir que não estamos batendo!

A sonhada busca de sentido

O primeiro passo para encontrarmos o tão sonhado sentido para a vida é o reconhecimento da nossa incapacidade diante de todos os contornos da nossa tortuosa e bela existência. Tal fato só é possível quando paramos nossas loucas distrações que não fazem mais do que adiar o inevitável. Se nossa vida não passa disso aqui, então por que continuar a lutar se o “the end” está tão próximo? Contudo, toda essa reflexão me joga nos braços da dependência. O tal do autoconfronto só terá sentido diante de uma postura de rendição e de retomada em fé Àquele que está na beira do caminho só esperando a gente quebrar a cara e voltar quebrado pela vida para enfim nos colocar de volta no seio da família, fazendo uma festa e desprezando nossas burradas.

Nosso maior problema não é bater a cabeça, mas fingir que não estamos batendo, tentando reduzir o impacto e a dor do choque com um lençol diante de uma parede dura.

Encontrar-se consigo mesmo é necessário e transformador, pois, à medida que vamos nos enxergando, enxergamos que precisamos do Pai, não por causa da semelhança, mas da distancia ontológica de quem somos, de quem Ele É e de quem seremos se Ele for em nós.

Quer um conselho? Enfrente o seu silêncio.

Que o Pai nos pegue no caminho.