Divertida mente, evangelho e céu

Eu curto cinema. Não sou daqueles que vão toda semana, mas bato ponto pelo menos a cada duas pra ver algo bacana. Como vou acompanhado da noiva, quase sempre perco a queda de braço e acabo vendo algum romance. Os que eu realmente quero ficam pro Netflix.

Nos últimos anos, uma tendência tem ficado cada vez mais evidente pra mim: animações e filmes pra criança são maravilhosos. As marcas que deixaram “Toy Story”, “Procurando Nemo”, “Carros”, “O Rei Leão”, “A Bela e a Fera” e muitos outros, são muito profundas. Debater temas complexos com desenhos, cores e formas é uma obra genial.

Nesse sentido, o incrível aconteceu nessa semana. Aninha me chamou pra irmos ao cinema e a odisseia da escolha começou. Só que “Divertida mente” estava em cartaz e era um filme pré-aprovado por ela. Foi o primeiro indício de que algo diferente me aguardava.

Na mosca! O filme é espetacular. Com um conceito incrivelmente simples, a Pixar mostra como as cinco principais emoções – raiva, tristeza, nojo, medo e alegria – interagem para gerenciar o cérebro de uma menina de onze anos chamada Riley, enquanto ela passa por uma crise pessoal.

As emoções são responsáveis por governar cada lembrança. Cada acontecimento específico – representados por bolinhas que são armazenadas em locais apropriados – é tingido de uma cor correspondente à emoção que a dominou. Algumas dessas lembranças, quando são muito marcantes, dão origem à um aspecto da personalidade da Riley.

Não vou dar nenhum detalhe do enredo que comprometa a diversão de quem odeia spoilers. Mas a história se desenrola num claro e evidente embate entre alegria e tristeza, as duas emoções mais destacadas.

As reflexões e nuances são arrebatadoras. O filme tem uma mensagem que caminha de forma estreita com a Palavra. Inclusive, John Piper e o ministério Desiring God, lançaram um artigo falando sobre o assunto. Mesmo numa ótica que não trabalha com premissas cristãs, a discussão é enriquecedora.

O cristianismo está longe de ser uma religião que prega a morte da tristeza neste lado da existência. É precisamente isso que algumas “igrejas” vendem: podemos experimentar apenas momentos alegres. Mas Cristo não veio a esse mundo para nos livrar de qualquer momento em que a tristeza nos domine. Muito pelo contrário, tristeza faz parte, necessariamente, da vida de todo cristão genuíno.

Cristo afirma: “no mundo tereis aflições” (João 16.33). Paulo diz que “também todos os que piamente querem viver em Cristo Jesus padecerão perseguições.” (2 Timóteo 3.12). Mais que uma constatação, a Palavra vai além em afirmar que Deus causa tristezas: “A tristeza segundo Deus produz um arrependimento que leva à salvação e não remorso, mas a tristeza segundo o mundo produz morte” (2 Coríntios 7.9).

É óbvio que a tristeza, como um fim em si mesma, não é uma virtude. Não somos instigados a buscar viver de forma triste. Mas nossa fé só será madura se entendermos que, além da tristeza ser natural, o próprio Deus se utiliza dela para nos moldar. Para nos afastar de nós mesmos, nos fazer odiar o pecado e tirar nossos olhos dessa terra.

O tipo de fé que pretende ser imune às tristezas ou que busca negá-las como se elas não existissem, é uma fé infantil. Todos os grandes homens de Deus padeceram sob as enfermidades desse mundo vil. O próprio Cristo, a máxima expressão da piedade, é  um “homem de dores que sabe o que é padecer”(Isaías 53.3).

Mas, além de sermos um povo cônscio das lutas e fraquezas, também somos o povo da esperança. Cremos que, um dia, a morte será tragada pela vitória (1 Coríntios 15.54). Se nossa fé hoje, para ser madura, necessita aceitar a tristeza e conviver com ela, a plenitude dos tempos manifestará a sua aniquilação. Todas as nossas lágrimas serão enxugadas pelas mãos doces daquele que era, que é, e que há de vir (Apocalipse 21.4).

O convite não é para negar as tristezas. É para depositá-las aos pés daquele que é o dono do mundo. Ele é aquele que guarda cada lágrima sua no seu vaso (Salmo 56.8).

Ainda que, deste lado da existência, assim como a Riley, sofremos por momentâneos domínios das nossas emoções “ruins”, sabemos que a alegria eterna e perene triunfará! O filme nos mostra, de forma muito bela, como somos agora. Mas a Palavra que encarnou e morreu em nosso lugar, comprou pra nós um futuro que é certo: alegria sobre alegria. Para sempre!