E a reforma continua?

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Na última semana comemoramos os 498 anos da reforma protestante. Não por acaso a data é a mesma em que é comemorado o Halloween. Um fato histórico importantíssimo pra igreja de maneira geral, sobretudo para aqueles que fazem parte deste movimento, a saber, todas as denominações evangélicas que surgiram ao longo do tempo advindos diretamente deste período ou seus dissidentes originadores de novos grupos que formam toda essa malha denominacional que conhecemos nos dias hoje.

Deixo registrado aqui meu apreço e louvor a Deus pela vida daqueles que nos ofereceram um novo horizonte, sem, contudo fazer vistas grossas às suas deficiências e atitudes radicais na direção de quem pensava diferente em determinados aspectos das escrituras, sem aviltar as bases da fé reformada que tinha como principal objetivo recuperar a centralidade de Cristo e abolir os intermediários entre Deus e os homens.

Agora, pense: a reforma protestante se deu no século XVI com diversas questões, peculiaridades e contextos locais. Sem desprezar sua ortodoxia, suas bases, seus conceitos e seus dogmas, precisamos, pela lente de Cristo, elaborar um “discurso pastoral da fé para o cotidiano” (como explica Ariovaldo Ramos sobre o que é teologia) para os dias de hoje e ainda considerando nossa própria cultura, nossas dificuldades locais e nossos desafios financeiros, tendo em vista que não moramos na Europa ou nos EUA, a terra das oportunidades, como dizem os próprios americanos.

Não quero, no entanto, propor uma nova reforma, mas retomar princípios fundamentais para os que se reconhecem na cruz do Cristo e vivem o agora, com toda a hipermodernidade, alta tecnologia, verdades relativizadas, hedonismo exacerbado e sem falar em toda essa cultura egoísta do “cada um cuida do seu”.

Nova York, por exemplo, vive um problema sério por conta das crises que acometeram o país desde 2009, com o aumento de moradores de rua, porém o Estado se nega a oferecer programas contundentes de assistência social por relacionarem tal prática ao comunismo. Em seu modo de enxergar, todos tiveram a mesma oportunidade de ascender financeiramente e cada indivíduo que “se vire” pra recuperar o que foi perdido, afinal é a “terra das oportunidades”.

Mas foi Jesus quem disse cheio de amor:

“Falta algo: venda tudo o que você tem e dê aos pobres. Toda a sua riqueza, então, estará no Reino do céu. Depois venha me seguir”. (Marcos 10.21 – versão A mensagem)

Sei que o objetivo desta fala era inverter uma lógica legalista do jovem rico, mas uma verdade latente foi levantada, como expõe Ariovaldo Ramos:

“Buscar conforto, enquanto jaz nas trevas, é alienação; não distribuir o conforto depois de ser trazido à luz é aberração, pois põe em dúvida o efeito da iluminação”.

Minha intenção não é estabelecer doutrinas últimas a respeito do que temos de fazer de maneira forçada e a todo custo a partir de agora, mas mostrar que estamos muito distantes de um cenário desejável tendo como base as escrituras e os reformadores do século XVI.

Foi João Calvino que disse:

“(…) tudo quanto a Igreja possui, seja em propriedade, seja em dinheiro, é patrimônio dos pobres.” (João Calvino, Institutas da Religião Cristã, Livro IV, Capítulo 4)

E também o profeta Isaías:

“Este é o tipo de jejum que eu quero ver: quebrem as correntes da injustiça, acabem com a exploração no trabalho, libertem os presos, cancelem as dívidas. O que espero que façam é: repartam a comida com os famintos, convidem os desabrigados para casa, coloquem roupas nos maltrapilhos que tremem de frio, estejam disponíveis para sua família. Façam isso, e as luzes se acenderão, e sua vida será mudada na hora. Sua justiça irá pavimentar seu caminho. O Eterno de glória vai garantir sua passagem. Então, quando vocês orarem, o Eterno responderá. Vocês clamarão por ajuda, e eu direi: Aqui estou”. (Isaías 58.6-9 – versão A mensagem)

O coração do homem possui o mesmo potencial de perversidade de sempre, encontrado desde a queda passando por todos os déspotas sanguinários da história e chegando até nós, porém as nuances das problemáticas sociais vão sendo modificadas, afinal de contas à escravidão “legal” foi abolida, a mulher conquistou o seu próprio espaço no seio das cidades e de todo o seu funcionamento, a homossexualidade não é mais tratada de maneira marginal e secundária, o clima tem sofrido consequências drásticas à medida que “evoluímos”, enfim o mundo não é sempre o mesmo.

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Mas aonde a Palavra da Vida, do Cristo morto e ressurreto, de Sua obra completa e definitiva na cruz encontra ressonância em nosso cotidiano?
Cadê aqueles que se orgulham tanto da reforma, mas levantam suas desculpas para continuar em suas pequenas redomas de soberba, conhecimento acadêmico e egoísmo, manifestando o Cristo pelo qual os justos deveriam viver?

De Deus é que se trata, do movimento que parte de Deus, do nosso estar movidos por Ele, não de religião. Teu nome seja santificado! Teu Reino venha! Tua vontade seja feita! A assim chamada “experiência religiosa” é, isto sim, uma forma derivada, secundaria, quebrada do divino. Mesmo em seus casos mais sublimes e puros, ela é forma e não conteúdo. Tempo demais toda nossa teologia passou lendo a Bíblia e a história da igreja sob este aspecto formal” (Karl Barth – O cristão e a sociedade, 1922)

Afirmo com toda a veemência e certeza:

A reforma pela reforma é um saco vazio de letra que mata, literalmente falando.

Mas se for concebida no leito de compaixão e misericórdia, da graça que é de graça, do amor que perdoa antes que tudo viesse a existir, entendendo ainda que sua finalidade era recuperar a ideia da soberania de Cristo sobre todas as vertentes da vida, então, digo a você, a reforma foi providencia divina, mas entenda que ela não terminou a séculos atrás, ela continua ainda hoje.

E então, que tal uma reforma?

Deus nos pegue no caminho.