E quem disse que Malafaia nos representa?

Bertold Brecht perguntou certa vez: “Que tempos são estes, em que temos que defender o óbvio?”. Já no bem humorado, irônico e surpreendente ensaio chamado “Sobre o óbvio”, Darcy Ribeiro ensina que desvendar o óbvio é um jogo sem fim, pois só conseguimos desmascarar uma obviedade para descobrir outras, mais óbvias ainda.

Não à toa, venho aqui falar sobre uma obviedade: Silas Malafaia não representa os cristãos evangélicos do Brasil.

Digo isso a partir da minha própria maneira de pensar e também da quase totalidade dos cristãos com os quais convivo. Ainda que o dito pastor tente na maioria das vezes se expressar através de premissas bíblicas, seus posicionamentos são rasos, preconceituosos e, no mínimo, “sem noção”.

Apesar de tudo isso, é verdade sim que ao ter espaço em grandes jornais, revistas e emissoras de televisão, Malafaia ocupa um vazio de opinião da igreja cristão evangélica. Isso acontece pela falta de unidade e pela grande Babel que se transformou a chamada igreja evangélica brasileira, que por motivos que Brecht e Darcy Ribeiro chamariam óbvios, não consegue unir-se em pensamento e “eleger” um representante que, de fato, assumiria as posições da igreja e seja assim uma espécie de “porta-voz”. Particularmente, penso que falta nesse meio uma organização séria e sensata, que saiba responder às demandas sociais em um ambiente político, com “biblicidade” e sensatez teológica. É sim necessário que organizações como a Visão Mundial, Jovens da Verdade, SEPAL, Missão na Íntegra, ONCC, MPC, dentre outras que fazem excelentes trabalhos Brasil afora, comecem a quebrar o silêncio diante das barbaridades que Malafaia esbraveja por onde passa “em nome dos evangélicos”.

Mas porque Silas Malafaia que se diz representante dos cristãos evangélicos, na verdade não o é?

Qualquer seguidor de Jesus que se preze sabe muito bem que o discurso de Malafaia distancia-se e muito do de Cristo. Nos últimos anos, Silas mudou drasticamente o seu discurso, passando a defender de maneira veemente a Teologia da Prosperidade, vendendo unção de R$900,00, aliando-se a Morris Cerrullo e Mike Murdock, bandidos de renome, travestidos de pastores nos EUA. Como se não bastasse, ele se auto intitulou “defensor da família” e passou a frequentar programas de televisão a fim de participar de embates disfarçados de debates com homossexuais. Fiz uma análise dos últimos 50 tweets de Silas Mafalaia. Apareceram por dez vezes a palavra gay, oito vezes o nome de Dilma e cinco de Jean. Nenhuma vez apareceram as palavras Jesus, Cristo, reino, justiça, amor, paz, alegria. Para não dizer que fui muito criterioso, apenas um dos cinquenta tweets foi de uma citação bíblica.

Jesus era bem diferente.

Sua experiência cristã era na vida, dia a dia, pelas ruas, abraçando e servindo pessoas, demonstrando o amor furioso de seu pai. Bem, o Cristo jantava com inimigos do povo, bebia ao lado de agiotas, acariciava leprosos, abraça os rejeitados, puxava conversa com mulheres promíscuas. “Eu não te condeno”, Ele ousou dizer nos ouvidos de uma prostituta.

Se alguém pode afirmar que Silas Malafaia representa os evangélicos, posso afirmar tranquilamente que ele está longe de representar os discípulos de Cristo. Os discípulos de Cristo não são seres difíceis de serem representados, na verdade, eles se alinham com aqueles que buscam a justiça, a paz, a justa distribuição de renda e o cuidado e atenção aos necessitados. Os pecadores? São abraçados e tratados, mas olhamos para esses assim como Cristo olhava. É por isso que José Antonio Pagola disse que “o primeiro olhar de Jesus não se dirige ao pecado do ser humano, mas ao seu sofrimento”. Há quem diga que nesse quesito, até o Papa Francisco nos representaria melhor. Penso que mesmo o Pe. Fábio de Melo, “produto” da indústria cultural, tem discursos infinitas vezes mais “cristãos” do que o de Silas.

Malafaia não representa verdadeiros discípulos de Jesus, pois esses primam por caminhar pelas pegadas que Ele deixou, a saber, as pegadas do amor, do serviço, da paz e da justiça e nunca, jamais, as pegadas do ódio, da raiva e do preconceito!