A Guerra na Síria não é uma profecia da Bíblia

Vi inúmeras publicações nas redes recentemente, relacionando o aumento das tensões bélicas e humanitárias na guerra civil da Síria, com a profecia do profeta Isaías, no capítulo 17 do livro que leva seu nome, no Antigo Testamento da Bíblia Sagrada. Uma destas publicações estava batendo a marca de 40 mil compartilhamentos! 40 mil!

Isto é dramaticamente triste! Triste por pelo menos dois motivos básicos: o primeiro é que inúmeros cristãos, infelizmente de grande maioria evangélica, estão consciente ou inconscientemente, ativa ou passivamente, utilizando a catástrofe humanitária na Síria, para fazer panfletagem marqueteira da fé que professam, através de uma profecia bíblica – absurdamente descontextualizada – publicamente nas redes sociais. A pergunta que me faço é: por quê? Não é hora e, muito menos, existe algum argumento verdadeiramente bíblico para isso.

O segundo motivo, que complementa este primeiro, é a constatação de tamanha inépcia e leviandade teológica presentes na igreja brasileira, fruto de uma geração inteira de cristãos que foram ensinados a desvalorizar as escolas bíblicas, a demonizar e marginalizar o estudo teológico, a preterir a leitura e a meditação sobre a Bíblia e sobre bons livros, em face de uma prática de fé predominantemente vinculada a eventos, sentimentalismo, emocionalismo, materialismo, busca por sinais e maravilhas, e uma ânsia desenfreada por relacionar qualquer fato mais proeminente das relações internacionais, a algo que a Bíblia supostamente tenha apontado escatologicamente. Tudo isso dramaticamente distante do mais mínimo conhecimento e respeito sobre a história da igreja, e do fundamento bíblico, que deve ser o pilar fundante sobre o qual a igreja constrói sua cosmovisão e molda sua confissão de fé.

O resultado só poderia ser esse.

É momento de calar. De orar. De chorar. De aprender quão maus nós como seres humanos podemos chegar a ser. Deixemos a panfletagem religiosa à custa da desgraça alheia de lado. Se não tivermos uma palavra de esperança ou consolo para um momento tão crítico como esse, então que nos mantenhamos de boca fechada.

No que tange ao contexto teológico da profecia quero ser bem breve e até mesmo óbvio. Apontarei 3 argumentos básicos que vão de encontro ao absurdo que tem sido divulgado:

Argumento 1 – se vocês lerem o livro todo do profeta, perceberão que ele está descrevendo uma série de juízos de Deus sobre inúmeros povos, pela apostasia e rebeldia que estes povos praticaram contra Ele àquela época. Tais juízos foram testificados e narrados pela própria Escritura nos livros dos Reis. Ora, alguns destes povos sequer existem mais, como os casos, por exemplo, dos babilônios, filisteus, assírios e moabitas. Egípcios, etíopes, sírios, inclusive o próprio Reino de Israel, por conseguinte, também eram parte da profecia. Pergunto: se a profecia de Isaías cumpriu-se 2700 anos atrás para todos os outros povos descritos no texto, incluindo povos até mesmo inexistentes atualmente, por que deveríamos imaginar que apenas para a nação síria a profecia está se cumprindo hoje?

Argumento 2 – na época da passagem bíblica, a nação judaica era divida em dois reinos: o Reino do Norte, chamado Reino de Israel, cuja capital era Samaria, e o Reino do Sul, chamado Reino de Judá, cuja capital era Jerusalém. Basta ler o texto para constatar que o juízo de Deus viria sobre o Reino de Israel e sobre a Síria, por um complô militar arquitetado por eles contra o Reino de Judá. Pergunto: Israel hoje é dividido em dois reinos? Israel aliou-se à Síria a fim de destruir uma parte do seu próprio território de modo a suscitar o juízo de Deus como apresentado na narrativa bíblica? São estes fatos que estão causando já há anos a guerra civil síria? Se não, por que estamos passando vergonha na internet, sendo constrangedoramente insensíveis ao momento, insistindo em correlacionar os acontecimentos diante de evidências tão primárias e lógicas de que uma coisa não tem nada que ver com a outra?

Argumento 3 – o texto fala da destruição da Síria e de Israel; algumas versões bíblicas referem-se a Israel como sendo Efraim, que era uma das doze tribos de Israel, onde situava-se Samaria, capital do Reino de Israel. O fato é que a profecia abrange os dois territórios, o sírio e o israelita. Ora, se o que está acontecendo no Oriente Médio hoje, é, de fato, o cumprimento bíblico da profecia, por que a nação de Israel também não está vivendo o mesmo caos humanitário em vias de ser completamente destruída nos mesmos moldes do que está havendo na Síria? Em suma, se a profecia abrange os dois povos conjuntamente, por terem tramado um ataque militar contra o Reino de Judá, conjuntamente. Por que os dois povos não estão sofrendo, conjuntamente, as consequências dos atos que praticaram conforme sustenta a profecia?

É triste ter de escrever tais coisas, num momento onde nosso papel deveria ser o de suportar nossos irmãos em oração e solidariedade. A Bíblia é um livro do qual temos de nos aproximar com muita reverência e cuidado. Trata-se de uma literatura, em certos momentos, bastante complexa devido a inúmeros fatores que deverão ser levados em conta, o que exigirá do leitor bastante esforço, estudo e certos recursos técnicos na arte da prática exegética e hermenêutica.

Minha oração é que esse desprezo generalizado em grande parte da igreja brasileira por boa teologia e pelo conhecimento, cesse de gerar tanta confusão, distorções bíblicas e aberrações teológicas. Que Deus nos livre dos atalhos preguiçosos na compreensão e pregação de Sua Palavra, e que, sobretudo, aprendamos que nos momentos de dor aguda, como este em que estamos como raça humana, o melhor caminho sempre será o de calar e chorar.

Em amor.