Minha história com a síndrome do pânico dentro do ambiente evangélico

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Vivemos numa sociedade em que as notícias, sejam elas boas ou ruins, espalham-se rapido demais. Temos muito mais acesso ao que se passa no mundo inteiro com uma facilidade muito maior do que a geração dos nossos pais e avós. Acordamos sendo bombardeados com as manchetes da televisão, os compartilhamentos no Facebook, as hashtags do Twitter. Tudo isso nos dá a impressão de que tudo está errado ao nosso redor, e na hora de dormir, então, o medo vem.

Mas quando esse medo extrapola a preocupação natural e atinge um limite patológico?

Quem não sofre tem dificuldade de entender

Eu confesso: tenho síndrome do pânico. Não sabia disso até dois anos atrás e até escrever esse texto tinha muito receio de falar sobre isso. Acredito que sempre tive essa predisposição, mas os sintomas só se revelaram após perder meu avô de forma inesperada e após ter minha casa invadida por ladrões em 2013. Por mais doloroso que seja passar por essas situações, a maioria das pessoas seguem suas vidas, aprendendo a conviver com a saudade e com a necessidade de estar sempre alerta para uma situação de risco. Eu, porém, não soube como me reerguer e isso me trazia um peso ainda maior, pois pensava ‘como alguém que crê em Cristo Jesus pode se deixar dominar por esses sentimentos tão danosos?’. Eu não me entendia.

Minha família e amigos, muitas vezes, não me entendiam também. Constantemente, eu ouvia pessoas queridas e próximas me dizerem que existiam tantos outros por aí com dificuldades e problemas tão mais sérios e difíceis do que os meus, como a fome, miséria, desemprego, doenças graves, escravidão, violência, abandono e ainda assim, continuavam em frente e eu estacionada no medo irreal na minha vida confortável.

Sentia-me totalmente egoísta. Realmente, devemos ter sempre o coração grato ao Senhor por tudo o que Ele nos dá e faz dia após dia para suprir todas as nossas necessidades. É preciso também termos sempre um coração compassivo que se comove diante das injustiças desse mundo e não se conforma diante das desigualdades que tantos sofrem. Porém, é necessário também haver empatia com as diferenças e debilidades, colocando-nos no lugar do outro para tentar compreender a sua dor e dificuldade. Deus se importa com cada detalhezinho do nosso ser e deseja preencher-nos da satisfação que há em viver Nele em cada área de nossas vidas.

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O Grito, de Edvard Munch

 

Até mesmo a igreja teve dificuldades em entender o que se passava. Cresci ouvindo que a Casa do Pai é um hospital para os doentes. Mas os “médicos”-irmãos que me diagnosticavam ali me perguntavam: como alguém que desde pequena conhece a Palavra de Deus, encontrava-se numa situação como essa?. Sentia-me uma fraca. Receitavam-me então: busque ao Senhor de verdade, pare de focar nas coisas desse mundo, tenha uma vida verdadeira de oração, etc. São ótimos conselhos, é claro. Extremamente necessários para uma vida espiritual saudável. Mas, muitas vezes, meu físico e emocional doente, desejava apenas um abraço, uma oração segurando minha mão, ou qualquer coisa que me fizesse lembrar de que eu não estava sozinha, mas Deus me deu pessoas para estarem ao meu lado. Não queria sobrecarregar ninguém com um peso meu, só queria sentir o cuidado do Pai por mim, de forma mais palpável. Ao contrário do que muitos pensam sobre pessoas com distúrbios psiquiátricos, como síndrome do pânico, transtorno de ansiedade, transtorno obsessivo-compulsivo, depressão, bipolaridade e outros, as pessoas em sua maioria querem melhorar. Elas só não sabem como fazer isso sozinhas.

Quem sofre só precisa de alguém

Eu tive a sorte de ter duas grandes amigas psicólogas que estiveram e ainda estão ao meu lado me dando todo o apoio necessário para melhorar. Além de cristãs, sendo irmãs de oração (sim, querido(a), tenho experimentado o quanto a oração do justo tem poder) para minha paz espiritual, elas têm sido ombros amigos que me ajudam a retomar a consciência e a linha de pensamento correta. Isso é muito importante! Pessoas que se importam com você te dão forças para voltar ao caminho.

Talvez você que esteja lendo esse texto agora, pode estar passando pela mesma situação ou por algo parecido. Que você saiba que você não está sozinho. Provavelmente, há várias outras pessoas passando pela mesma situação que você. Você precisa aprender a pedir ajuda. Converse com sua família, com seus amigos, com seus líderes da igreja, para que eles saibam o que está acontecendo e te ajude a procurar profissionais capacitados para cuidar do seu físico.

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O mais importante, porém, é que você traga à sua memória o que pode te dar Esperança {Lamentações 3:21}. Lembre-se de tudo o que o Pai já fez por você, das situações que Ele te ajudou a vencer. Deus nos promete um futuro de Paz, e não de desespero {Jeremias 29:11}. Mesmo sabendo que estamos sujeitos a passar por situações difíceis, como qualquer pessoa, não devemos nos sentir vulneráveis, pois Ele prometeu (e cumprirá) que estará ao nosso lado todos os nossos dias, em todos os momentos, nos dando forças para termos bom ânimo para vencer esse mundo corrompido, mau e corrupto {João 16:33}. O Amor Dele faz-nos sentir seguros em Seus braços e vence todo o medo {I João 4:18a}. Confie em Sua Palavra, mesmo quando tudo ao seu redor te fizer temer. Não permita que esses pensamentos ocupem sua mente e te dominem, mas lembre-se de tudo o que a Bíblia diz e permita que dia após dia, ela renove sua maneira de pensar e enxergar o mundo ao seu redor. Você não tem controle de nada a seu respeito, então entregue-se completamente e confie Naquele que cuida de você em todo o tempo!

Ah, e se você não passa por essa situação, esse texto também é para você. Que Deus te dê sensibilidade para notar se alguém ao seu redor está precisando do seu apoio, companheirismo e intercessão. Isso também é uma forma de salvar vidas.