‘Mulher, por que choras?’ Cristianismo e a violência
contra as mulheres

Sempre me esquivei de escrever sobre algo relacionado a questões de gênero, pois é um tema complicado demais porque envolve conceitos enraizados em nossas cabeças. O máximo que eu me dava o direito era aquela típica divisão (na minha opinião, desigual e injusta) das reuniões de jovens e adolescentes da igreja: meninas tragam comida, e meninos, refrigerantes. Mas, recentemente, percebi que o nosso silêncio para evitar discussões, chateações ou desentendimentos custa caro demais, muitas vezes até o preço de uma vida. Não podemos mais nos calar diante de situações como as que citarei abaixo e que são apenas algumas poucas das que dia após dia, infelizmente, tendem a repetir-se:

  • Há três semanas, junto a vários colegas, presenciei o assassinato de uma aluna da minha universidade dentro da cantina universitária por um ex-companheiro que não aceitava o término do relacionamento. O cúmulo do horror.
  • No final de semana passado, vi colegas do meu curso e de outros revoltarem-se contra o hino da atlética feito por pessoas que seguirão a mesma profissão que a minha. O hino, por meio de palavras baixas, apresentava o pensamento distorcido que essas pessoas tinham em relação às mulheres com a desculpa de ser algo cômico (???). O objetivo era estimular a rivalidade entre as torcidas. Duas semanas apenas à tragédia na universidade. O cúmulo do absurdo.
  • No começo da semana, todos os jornais noticiavam a violência sofrida por uma menina de 12 anos causada por três garotos dentro da escola em que estudavam. O cúmulo da vulnerabilidade e medo.

Nossa sociedade anda tão mentalmente cauterizada que nem percebe mais as pequenas atitudes que demonstram o desrespeito e opressão em relação às mulheres. Muitas vezes nos questionamos sobre o que leva uma pessoa a cometer um crime tão horrível contra outra pessoa, esquecendo-nos de que essa violência é o ponto alto de pequenas mentiras que dia a dia são propagadas por aí.

A mulher não é propriedade de ninguém. Nem do seu companheiro, marido ou de um desconhecido na rua que a olha vulgarmente dos pés à cabeça, assobia ou acha que pode tocá-la. A Bíblia é muito clara ao dizer que o homem tem o direito sobre o corpo da mulher, assim como a mulher tem o direito sobre o corpo do homem (I Coríntios 7), não em uma relação de subjulgação, mas em um relacionamento de companheirismo, igualdade, compartilhamento, respeito e intimidade.

A mulher não é inferior aos homens. Jesus, durante todo o seu ministério, valorizou as mulheres e sempre as permitiu serem participantes de Sua obra. Embora vivessem em uma sociedade patriarcal, na qual, muitas vezes, apenas conversar era proibido entre um homem e uma mulher, Jesus tinha amigas íntimas, como Marta e Maria. Ele as fez importantes e recuperou sua dignidade. O Evangelho de Jesus é baseado na igualdade e na diversidade.

Mulheres, não acreditem que o papel de vocês é estar marginalizadas. Não cantem canções que coloquem vocês em posições de meros objetos, não se vistam com roupas que mostrem o que há de melhor em você (e em seu interior), não se submetam aos maus-tratos e/ou a qualquer situação que tire de vocês a dignidade que Cristo morreu para lhes dar. Sei que é difícil, mas saiba que há socorro, há ajuda.

Homens, aprendam com suas mães, com as mulheres da sua vida e, principalmente, com o seu melhor exemplo de homem perfeito: Cristo Jesus. Quando você olha com malícia para uma mulher, quando a acha incapaz de fazer algo, você tira dela a integridade que Cristo a deu, você desobedece ao que Ele os ordena (‘sejam sábios no convívio com suas mulheres e tratem-nas com honra, como parte mais frágil e co-herdeiras do dom da graça da vida’, em I Pedro 3:7). Entendam que submissão não quer dizer subserviência, mas sim transmitir aos seus pais e maridos o respeito que elas têm por Deus ao verem nesses homens a presença do Senhor. E, por fim, ame-as com todo o respeito, como se fossem a vocês mesmos, e trate-as como você gostaria de ser tratado.

Igreja, coloque-se no papel de referência social, siga o chamado que Deus te deu. Isso é muito sério! Não feche os seus olhos para a responsabilidade de ser um lugar de apoio e cura que você deve ser. Acredito que o Seu cabeça e líder não tolera a violência e nem a omissão diante dela, portanto, não utilize a santa Palavra de Deus para liberar-se do compromisso que você deve assumir.

Não aceite e nem colabore com aquela velha história de, ‘em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher’, pois isso não funciona. Como a Bíblia mesmo aponta, dizer ‘volte amanhã’ ao nosso irmão que tem fome, quando eu tenho pão para dar, é inconcebível. Da mesma forma que é lamentável dizer apenas que ‘vamos orar’ por uma irmã que relata a alguém ou apresenta sinais de abusos sofridos dentro do seu lar. Claro que devemos SEMPRE buscar em oração direção de Deus para essas situações, mas JAMAIS podemos utilizá-la como instrumento de omissão. Nossa fé requer ação e compaixão. Romper com essa cultura de desvalorização da mulher é fundamental para que a Igreja assuma seu papel de transformação da sociedade.

No caso da menina da faculdade, o assassino – dizem alguns – está solto esperando o julgamento. No caso da Atlética, ninguém teve coragem de relatar os nomes dos responsáveis ou assumir o seu erro. No caso da garota em São Paulo, a família de um dos agressores fugiu para livrá-lo de pagar a pena. E em nossas Igrejas, em nossas famílias? Permitiremos que a situação se repita próximo a nós, colocando mulheres em perigo? Não podemos ficar inertes, pois isso pode acontecer com você, comigo, com pessoas que amamos. E mesmo que não aconteça (que é nossa oração diária), devemos aprender a nos colocar no lugar das pessoas que ainda estão nessas situações. Não permita que seu coração se engesse a ponto de não se comover, de não se indignar, de não se revoltar com a dor do próximo.

Em João 20:13, ao perguntar ‘Mulher, por que choras?’, Jesus demonstra que era capaz de expressar emoções e empatia pela dor da mulher. Ela era importante para Ele e, por isso, sua dor o afetava também. Que nossas Igrejas se sensibilizem aos prantos das mulheres e, como Cristo, confrontem a sociedade com seus conceitos distorcidos e lutem pelos direitos iguais para todos. Para mim, isso é evangelho de verdade.

‘Desse modo, não existe diferença entre judeus e não judeus, entre escravos e pessoas livres, entre homens e mulheres: todos vocês são um só por estarem unidos com Cristo Jesus.’ (Gálatas 3:28)

*P.S.1:O título desse texto faz referência a uma palestra da teóloga feminista Elizabeth E. Green.
*P.S.2: Que não nos calemos diante dessa triste realidade. Amém.