O estupro da beleza feminina

Qual o posicionamento cristão no que diz respeito a ética sexual atual e ao crescente número de mulheres sendo estupradas em nossa sociedade? O tema é delicado. Estamos tratando de um câncer social que, por séculos e séculos, amedronta mulheres de todas as cores, raças e idades. Constantemente o assunto ganha as manchetes dos grandes veículos da imprensa, e dessa vez foi a Revista Super Interessante, em sua mais recente edição, que estampou na primeira página a problemática da violência sexual contra a mulher. A capa da publicação traz a informação que uma em cada cinco mulheres serão estupradas e as instituições mais importantes da sociedade como escolas, igrejas e universidades insistem em varrer esta realidade hostil para debaixo do tapete. O que isso comunica a respeito do comportamento das mulheres e dos homens do século XXI? O que a Escritura Sagrada tem a dizer sobre este tema tão espinhoso?

Aos que, porventura, tiverem interesse, sugiro a leitura do capítulo 16 do livro de Ezequiel no Antigo Testamento. Trata-se de uma alusão interessante das Escrituras sobre a vulnerabilidade sexual de uma mulher. O capítulo faz alegoria à relação entre Deus e a cidade de Jerusalém, como se o Senhor estivesse tratando de uma mulher em situação de grande dificuldade familiar, social e espiritual. O versículo 8 transmite a ideia central da ação de Deus em tal circunstância:

“Então cobri o seu corpo nu com a minha capa e prometi amar você. Sim! Fiz um contrato de casamento com você, e você se tornou minha. Sou eu, o Senhor Deus, quem está falando” – Ez. 16.8b – NTLH

A narrativa bíblica apresenta Deus amando Jerusalém de todas as formas, vestindo-a com as melhores roupas da época, enfeitando-a com os mais belos enfeites que poderiam existir, alimentando-a e cuidando de todos os detalhes para que em tudo ela se sentisse querida, guardada e amada. Porém, pouco tempo depois e sem pudor algum, Jerusalém escolhe afrontar, trair e abandonar a Deus e, por isso, colhe os frutos de sua traição.

Mas vamos nos ater ao que podemos aprender com a atitude de Deus frente a situação deplorável de Jerusalém no início desta narrativa bíblica. É mais do que óbvio que mulher alguma, por motivo algum, merece ser estuprada, isso é o cúmulo do absurdo! Nenhum comportamento obsceno, roupa sensual, ato imoral, nada, nunca justificará um estupro! Admitir o contrário disso é inocentar o estuprador da total responsabilidade que ele tem por seus atos. Todavia, Deus em seu infinito amor, sabe aquilo que é melhor para seus filhos e filhas. Ele nos ama de um modo tão forte que não pode deixar-nos afundados em nossa devassidão. Ao se deparar com Jerusalém nua, completamente fora de si, perdida em seus próprios pecados, Ele a cobriu, a lavou, deu a ela roupas novas e tudo o mais que fosse necessário para que ela se tornasse digna e honrada. Que nenhuma mulher merece ser estuprada é obvio, acredito não ser mais necessário conjecturar a respeito deste ponto. Porém, acredito que ainda temos de aprender algumas outras lições.

Será que não estamos vivendo um tempo onde a relativização moral é tão absurda que as próprias mulheres transformaram a exposição de seus corpos no expoente maior dessa banalização de valores e princípios, a fim de alcançarem reconhecimento e status? Caras mulheres, será que muitas de vocês mesmas não estão se auto degradando, expondo seus corpos nas ruas, nas lojas, nos shoppings, nas igrejas, na televisão, nos comerciais de cerveja, nas redes sociais e em tantos outros locais, quase como se fossem mercadorias que estivessem à venda? Minhas queridas, isso é auto-engano, não faz sentido buscar realização e alegria a partir da exposição desenfreada do próprio corpo. Qual verdadeiro valor do corpo de uma mulher? Toda essa sensualidade e nudez exorbitantes são realmente necessárias? O que Deus pensa sobre isso? A mulher, hoje, se interessa pelo que Deus pensa do corpo dela? Qual foi a atitude do Deus cheio de amor para com Jerusalém? Ele a cobriu, a enfeitou, cuidou dela, trouxe a ela dignidade, paz, beleza, equilíbrio e vida. Qual foi a atitude de Jesus diante da mulher adúltera que Ele livrou de um apedrejamento depois de sua célebre provocação “aquele que não tem pecados atire a primeira pedra”? Ele disse, “vá e não peques mais”.

Cristo sempre requer de nós uma nova atitude, sempre há um novo mandamento subversivo, uma nova postura de vida a se adotar que se alinhe aos padrões do Reino de Deus, que não é deste mundo. Mulheres, vocês têm se preocupado com aquilo que Deus pensa a respeito de como vocês lidam com o corpo de vocês? Meu coração fica pesaroso quando vejo o número crescente de garotas nas redes sociais mostrando seus corpos, insistentemente, em fotos e vídeos cada vez mais picantes, numa busca incontrolável por atenção e autoafirmação, que jamais serão supridas por curtidas ou inúmeros parceiros sexuais.

E nós homens? Que tipo de masculinidade é essa que temos vivido, onde as mulheres não passam de meros objetos dos quais queremos aproveitar sexualmente? Estamos deixando a pornografia acabar com nossas mentes, estamos queimando etapas, dando vazão aos nossos instintos mais selvagens e deturpando tudo aquilo que é belo e bom para um relacionamento saudável entre um homem e uma mulher. Sempre que você observar uma moça apenas como um objeto sexual, e seu coração se encher de lascívia e desejo, lembre-se de que você está pecando, lembre-se que aquela pessoa é um ser humano criado à imagem e semelhança de Deus e merece toda honra e dignidade, independentemente do que ela esteja fazendo e de como ela esteja vestida. Nosso compromisso antes de qualquer coisa, é com Deus e com a nossa consciência. Chega de jogar apenas nas costas das mulheres a culpa da imoralidade sexual que aí está! Chega desse papo: “é o instinto masculino, homens são assim mesmo”, não! Infidelidade, imoralidade, traição, desrespeito, lascívia, luxúria, são atitudes e desejos errados – e para os cristãos, são pecados – e não podem ser encarados como algo normal. Se estas características pecaminosas são mais acentuadas nos homens, a atitude a ser tomada não pode ser aceitar o erro como se fosse algo normal, antes, devemos aumentar nosso cuidado e nossa luta contra o pecado. Nós homens, somos chamados a liderar nossos lares e temos total responsabilidade de levantar a bandeira contra o estupro, a favor da dignidade da mulher e a favor de uma sexualidade saudável no mundo. Temos muito a aprender com a atitude de Deus em relação a Jerusalém no texto do profeta Ezequiel. O intuito principal do Senhor nunca foi usar Jerusalém! Que tipo de maridos ou pais de família pretendemos ser com esses comportamentos grotescos que temos adotado? Que vergonha devemos sentir! Temos sido homens indignos, que apenas se preocupam com o próprio prazer sexual e não merecem a dádiva de ter e cuidar de uma mulher e de uma família de verdade. Temos de nos arrepender desse pecado urgentemente!

O movimento cristão Clube Love está trabalhando intensamente na conscientização do grande mal que o consumo de pornografia traz. Trata-se de conferências intituladas “PornFase” que serão realizadas por todo Brasil, e têm como principal lema a expressão “pare a demanda!”. É exatamente isso. Se nós homens, parássemos a demanda não só com relação a pornografia, mas também, com relação a toda atitude que inferioriza e coisifica a mulher como um mero objeto sexual, muita coisa melhoraria. Siga o movimento nas redes sociais e fique de olho no trabalho que eles têm desenvolvido.

Precisamos da graça de Deus em meio a essa triste realidade. A fé cristã possui uma visão e uma ordenança comportamental tanto para homens como para mulheres no que diz respeito à sexualidade. Homens precisam se comportar com dignidade, respeitando a si mesmos e as mulheres que estiverem ao seu redor. O homem deve temer a Deus acima de todas as coisas e buscar para si aquela que será a mulher de sua vida e que suprirá suas necessidades, seja em que área for. Àqueles que insistirem nesta prática nefasta de abuso sexual contra as mulheres, punições cada vez mais severas devem ser discutidas e, sobretudo, aplicadas. Às mulheres, talvez seja imprescindível lembrar que para Deus a beleza do espírito deve ser maior que a do corpo. Que graciosidade não está somente nas curvas e na pele que se mostra, mas, muito mais, no coração, no caráter, nos valores e na vida que se vive. Guardem a sensualidade de vocês para seus maridos, desfrutem de toda liberdade e prazer sexual que Deus nos dá no leito do casamento, respeitem os homens, as mulheres e as crianças dos lugares por onde vocês irão passar, solidarizem-se pelos direitos daquelas que foram a ainda serão estupradas e lutem pela punição dos que são os estupradores. Mulheres cristãs, tenham sempre em mente as palavras do apóstolo Paulo: já não são mais vocês que vivem, mas Cristo que vive em vocês!

Que Deus nos alcance!