O jeito legal de Gilberto Gil nos ensinar sobre relacionamentos

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Se por acaso alguém algum dia fez críticas a você dizendo que era sensível em excesso ou romântico demais, despreze tais comentários. Sensibilidade é uma das maiores virtudes neste louco mundo líquido e automático e infelizmente tem gente que associa o termo com orientação sexual, mas não passam de ignorantes que não enxergam o que está nas entrelinhas da existência.

Começo este post assim, pois fui lembrado pela vida de uma obra prima da nossa MPB escrita por Gilberto Gil e como ela é simples, profunda e sincera. Minha intenção aqui não é fazer uma análise teológica, como por algumas vezes já fiz com diversos versos de compositores cristãos e não cristãos, mas apenas vomitar alguns sentimentos ressoando o que a canção provoca em mim. Espero que esteja aberto para essas interações com o inusitado em seu dia à dia, se nunca pensou antes a respeito convido você a esta reflexão.

Aumente o som e vamos juntos.

A canção começa assim:

“DRÃO, O AMOR DA GENTE É COMO UM GRÃO/ UMA SEMENTE DE ILUSÃO/ TEM QUE MORRER PRA GERMINAR…”

Não creio que o Gil tenha baseado este trecho em João 12 e é isso que mais me anima, pois a criação fala do Criador independente da consciência. Na verdade ele fala de uma relação amorosa que gerou frutos maiores do que os sentimentos românticos e que extrapolam seus planos e intenções iniciais, como alguém que planta uma semente, mas não sabe exatamente como a árvore será. Pode até sonhar idealizando algo a respeito, porém de maneira alguma pode desenhar com perfeição como serão as folhas ou qual será a envergadura do tronco, pra dizer o mínimo.

E continua:

“…PLANTAR NALGUM LUGAR/ RESSUSCITAR NO CHÃO/ NOSSA SEMEADURA/ QUEM PODERÁ FAZER AQUELE AMOR MORRER/ NOSSA CAMINHADURA/ DURA CAMINHADA/ PELA NOITE ESCURA”

Recentemente me perguntaram em um aconselhamento: “Como saber que a pessoa com quem estou me relacionando é a pessoa certa pra mim?” e eu respondi: “Ele(a) não é a pessoa certa”. Isso é besteira. Isso não existe. O Gil nos lembra que nas relações plantamos, ressuscitamos, caminhamos uma dura caminhada e tudo isso é fruto de árduo trabalho. Mas como sempre queremos determinar nosso futuro e achamos que ele só depende do que podemos fazer no hoje, tentamos cravar a felicidade com pensamento positivo. E este é mais um dos sintomas que mostram o quanto morremos de vontade de ser deus. No mais, só traz frustração e angustia.

Vamos mais adiante:

“DRÃO, NÃO PENSE NA SEPARAÇÃO/ NÃO DESPEDACE O CORAÇÃO/ O VERDADEIRO AMOR É VÃO/ ESTENDE-SE INFINITO/ IMENSO MONOLITO/ NOSSA ARQUITETURA…”

Tenho que discordar do autor pelo menos em parte deste trecho, porém percebo que ele mesmo se contradisse ao afirmar que “o verdadeiro amor é vão” e na frase seguinte dizer que “estende-se ao infinito”, entendo que ele queira referir-se ao “verdadeiro amor” da vida quando este é uma pessoa e neste quesito concordo com o Gil, mas o verdadeiro Amor transcende o ser humano por isso é mais do que infinito, é eterno e é justamente com ele que devo trilhar as duras caminhadas. Este é fruto de decisão, o qual o próprio autor não concebeu, tendo em vista que escreveu esta canção por conta de uma cisão em um relacionamento. Mas a gente é assim mesmo, nem tudo em que cremos dá origem ao que fazemos. É só olhar o nosso triste cenário evangélico brasileiro, mas este é papo pra outro momento.

E finalmente:

“DRÃO, OS MENINOS SÃO TODOS SÃOS/ OS PECADOS SÃO TODOS MEUS/ DEUS SABE A MINHA CONFISSÃO/ NÃO HÁ O QUE PERDOAR/ POR ISSO MESMO É QUE HÁ DE HAVER MAIS COMPAIXÃO/ QUEM PODERÁ FAZER/ AQUELE AMOR MORRER/ SE O AMOR É COMO UM GRÃO/ MORRE, NASCE TRIGO/ VIVE, MORRE PÃO”

O grande Gil termina a música dizendo que os frutos da relação cresceram e agora tem vida própria, não dependem mais de como tudo era no início – e aqui abro um parênteses. Toda relação que não nos faça crescer e amadurecer é danosa. Um pai precisa ensinar o filho a atravessar a rua sozinho. Um pastor precisa mostrar ao individuo de seu rebanho que as decisões que este deve tomar são de sua responsabilidade e deixá-lo tomá-las por si próprio – é urgente que retornemos à sensibilidade. Nossa cosmovisão não pode ficar aprisionada ao que os formatos nos ensinaram. Existe vida depois das decisões erradas que tomamos na caminhada. Nós crentes é que condenamos tudo o que diverge do que não se enquadra em nossos parâmetros de família, de fé e de cultura, e digo nossos, porque não me refiro aos valores da cruz, de Cristo e de Sua Palavra, são apenas convenções religiosas que nos perseguem alfinetando nosso olhar humano. O trecho fala de alguém que reconhece seus pecados e mostra que é só assim que nasce a compaixão, quando “os deuses” de si mesmo se esvaziam, quando conseguem se reconhecer nas deficiências do próximo.

Sobretudo, o que mais foi revelado a mim por esta canção é o fato de que não sou mais o mesmo do que eu era e nem as minhas relações permanecem estáticas. É preciso fazer morrer pra germinar, fazer ressuscitar, deixar ir pra voltar. Engana-se quem espera que o seu marido seja o mesmo homem do que quando namoravam e que a esposa seja a mesma mulher de antes. Tudo muda, a vida afeta, o que fazemos com isto é que importa. A vida se transforma a medida que interagimos e é preciso ver beleza em tudo isso ou seremos sujeitos amargos e frustrados que vivem da nostalgia de quando tudo eram rosas.

Vai por mim, a vida é dura, mas é bela. Não se importe tanto com o que dizem a seu respeito. Dance mais, ria mais, seja mais brega. Perdoe mais, ceda mais, perceba quem você ama. Se errou o trilho, refaça o percurso, só não tente ser o que você jamais será novamente.

Que o Pai nos pegue em todos os cantos, inclusive nos mais inesperados.

Nele.