O profeta Chorão em “Champagne e água benta”

Apesar de ser fã de Alexandre Magno Abrão, confesso que nunca havia pensado em escrever algo sobre suas músicas, sua ideia, seu jeito de pensar. E confesso que apesar de ouvir muito Charlie Brown Jr, não havia passado pela minha cabeça escrever sobre suas letras.

Fui desafiado por um amigo, que encontrava-se indignado do nosso blog nunca ter abordado uma música dele como referência e fonte de meditação. Sua insistência foi tamanha que decidi escrever uma série de textos, cada um, baseado em uma música de Alexandre, pretendendo homenagear não somente a sua memória, mas também os fãs que perderam um profissional de talento esplêndido do ramo musical. E é óbvio, pretendo também edificar a fé e a nossa caminhada com Cristo no dia-a-dia.

Sendo assim, uso hoje uma música que, eu sei, escandalizará a maioria das pessoas que conhecem a sua letra, mas tentarei me apegar aos aspectos positivos desse som, fazendo um paralelo entre Chorão, Jesus e a vida. Acredito piamente que isso seja possível, espero contar com a misericórdia de vocês em cada um desses textos.

Que Deus nos ajude, e que o Espírito Santo conduza a nossa meditação.

A música escolhida foi composta por Alexandre e Champignon (baixista da banda). É formada por quatro estrofes mais refrão (apresentado repetidas vezes). Escolhi essa música para iniciar, pois a considero intimamente ligada ao evangelho. Explico. O refrão da música traz uma frase que em minha opinião sintetiza bem o evangelho de Cristo:

Não tão complicado demais / Mas nem tão simples assim

O que é verdade. O evangelho de Cristo, em teoria, não é complicado. Nós “desgraçados”, depravados em nosso pecado, encobertos pelo mal, sem noção do que estávamos fazendo, fomos atraídos pela graça de Deus através de um sacrifício puro, santo, sem mácula alguma e maneira totalmente imerecida.

Antes o Cordeiro tivesse sido imolado por gente boazinha, que já deseja mudança de vida, uma saída para as falhas, para os erros, para os pecados. Gente que não usa mais drogas, que não sai com prostitutas, que não tem relacionamentos homossexuais. E por aí vai. Mas não, foi gente que não estava nem aí para o que estava vivendo, estava morta em delitos em pecados. Gente que estava vivendo do jeito que gente não deveria viver. Pelos justos até que alguém poderia morrer, mas pelos pecadores? Que amor é esse? (Romanos 5.7-8)

Se por um lado a simplicidade do evangelho diz que nós nunca conseguiriamos fazer nada para encontrar e receber essa boa notícia e sem esforço recebermos. Por outro, percebemos que é complicado assumir que, principalmente as pessoas boazinhas que nunca saíram da igreja, que morrem de vontade de ir pra balada , que metem o pau nos homossexuais, que acusam os políticos corruptos, os adúlteros, os pedófilos e assassinos, não se enxergam numa mesma condição, num mesmo estado de carência dessa mesma graça.

Perder o orgulho e negar a justiça própria é algo extremamente complicado.

Assim, Chorão apresenta com a maestria que a banda sempre trazia em suas músicas, um paradoxo do evangelho, conhecer sua própria miséria, lutar contra ela, mas entender que isso (pecado) é algo da sua natureza (pecaminosa), não dá para abrir mão dela. A condição para ser salvo é crer que é pela graça que somos salvos.

Escolhi essa música, pois a considero a realidade dos nossos dias. Nós não somos alienados, inocentes e ingênuos. Sabemos bem como o mundo está e a primeira estrofe da música trata disso:

Atitude a gente tem / Sorte a gente tem também / De um jeito ou de outro, pode crer que elas vêm / Mas não só pro rolé, pra muito mais que isso / O que elas querem é aquilo e você tá ligado nisso / Vem, vem com tudo, me leva pro seu mundo / Toda patricinha adora um vagabundo / Se fui pobre não me lembro, se fui rico me roubaram / Meu esporte predileto é o mesmo do Romário

Aqui, gostaria de pontuar uma denúncia ao nosso método de ser igreja. Veja, a igreja não está preparada para dialogar com isso. Nem para entender tudo isso. Ela não quer perceber os anseios, os desejos, as vontades do jovem atual, e usam de frases que até são verdadeiras, mas que para muitos não possua sentido algum, como: “Vocês querem prazer a todo custo”; “Só pensam em sexo”, e por aí vai. Creio ser daí que surgem as doutrinas de pureza sexual e usos e costumes e outros mais.

A igreja não consegue lidar com muita coisa fora de seu contexto, se escandaliza com o novo e considera todos errados. Não quero dizer, nem propor que deve-se aceitar tudo o que está sendo dito, feito e ensinado por aí, com as drogas, festas, relacionamentos relâmpagos e tudo mais. Quero dizer que a igreja precisa conhecer o chão que está pisando, com quem está falando, e de que forma pode responder a isso.

Quem está do lado de fora da igreja não vai entrar nela pela acusação de um erro.

Gostaria de pensar, e sugerir à cada líder de jovem (ou líder de quem leu esse texto por aqui), que pensasse nas abordagens, no tipo de assunto e no tipo de realidade de vida que você pensa que seus jovens levam, porque o que existe fora do padrão religioso: templo, sábado a noite, igreja, música gospel e o anseio da nossa juventude por todos os lados é o que nosso “profeta” canta nessa estrofe da música.

Que a nossa juventude nos perdoe da nossa alienação de três a quatro gerações atrás. Em nome de Jesus.

Minha vida é tipo um filme de Spyke Lee / Verdadeiro, complicado, mal-humorado e violento / Você é bonito e eu sou feio / Sua mãe te ama, mas eu te odeio / Quem tem boca fala o que quer, só não pode ser mané / Coração de vagabundo bate na sola do pé / Zica tem monte, zóião também / Tomo banho de banheira com champagne e água benta

Nesse trecho, mais uma parte de cotidiano puro da juventude: verdadeiro, complicado, mal-humorado e violento, não preciso comentar isso, olhe para a juventude da sua igreja. Agora a frase que considero genial dessa estrofe é: “Tomo banho de champagne e água benta”. Entendo que chorão esteja se referindo ao seu banho como algo para tirar o “carma”, mal olhado, algo desse tipo.

Mas, como vocês dirão nos comentários, nas minhas “forçadas teológicas”, eu acho que podemos enxergar essa frase da seguinte maneira: por quê a igreja não vai onde tudo é considerado iníquo, ou indecente, ou desgraçado? Por quê não? Por quê não ser a mistura que vai dar diferença? Por quê não ir lá e salgar? Por quê não brilhar no meio de onde ninguém enxerga nada de bom.

Ou então porque não acolher aqueles que vem até nós, algo que hoje já é quase impossível. A gente precisa parar com esse proselitismo religioso, parar de nos considerarmos os corretos, com a religião correta, com a forma correta de fazer e entender quem é o povo que nós desejamos alcançar.

Se Cristo é a verdade, e nós temos a Cristo, qual é o medo do diálogo? Se Cristo é a verdade, e nós temos a Cristo, qual é o medo de conversar? Se Cristo é a verdade, e nós temos a Cristo, e Cristo é uma pessoa e caminhou com pecadores de todas as índoles, qual o nosso medo de trazer o “desgraçado” para caminhar conosco?

Se nós continuarmos andando como temos andado, a nossa juventude nos responderá com indiferença. Marca da última estrofe: “Você é bonito, e eu sou feio / Sua mãe te ama, mas eu te odeio”, quando deveríamos ouvir: “Você é diferente, me acolheu, me apresentou o caminho e não desistiu de mim”. A juventude precisa encontrar respostas em nós, porque as perguntas estão sendo feitas por aí.

Alexandre respondeu várias delas, preocupando-se em falar da vida real, para juventude real. Sem “gerações” eleitas, “gerações” que vão se levantando”, sem “loucos” por nada religioso. Simplesmente gente respondendo gente, sendo gente, com anseios e vontade de compartilhar. Gente sendo ser humano. Gente junta sendo comunidade, é disso que a nossa juventude precisa.

Que Deus nos abençoe e até a próxima profecia do profeta Chorão.