O que estamos boicotando mesmo?

ana e c&a

O termo boicote  apareceu em 1880, em Londres, quando o jornal Times fez a cobertura do conflito entre Charles Cunningham Boycott e seus trabalhadores. O capitão Boycott administrava terras e era conhecido como um durão. Foi tornando-se um grande déspota regional, até que levou um grande gelo comercial, arquitetado pelo sindicato dos trabalhadores rurais. Em pouco tempo, nenhum irlandês fazia comercio com o rígido capitão. A história conta que até os carteiros aderiram. Resultado: ele teve prejuízos e ainda teve que arranjar trabalhadores em outras regiões para a colheita. Boycott teve que sair de vez da Irlanda e entrou nos dicionários.

Parece legítimo que um coronel mandão seja punido com um boicote, não? Agora, imagine só, quem mais se parece com o capitão dessa história? Será que seria a famosa loja de marca de roupas ou os artistas gospel e pastores estrelinhas que nós temos no mercado? Será que é a loja que apenas quer vender mais sua imagem ou as pessoas que apenas querem dominar o mercado com suas teologias da prosperidade e seus inúmeros produtos?

A cantora evangélica não faz a menor ideia sobre o que merece realmente um boicote. O  famoso pastor histérico também não. Será que toda vez que tivermos uma oposição de ideias, sobretudo sobre homossexualidade, temos que falar em boicote? Será que todos os evangélicos pensam assim? Será que não podemos criar uma linha de diálogo sadio? Será que essa é realmente a melhor forma de ensinar e amar a Palavra de Deus?

Pensem na cena: os fariseus condenam Jesus a morte, Pilatos não faz nenhum oposição clara e todos os seus seguidores e apóstolos resolvem boicotar Roma. Seria essa a melhor ideia para marcar a presença da igreja na sociedade?

É bastante importante dizer que não estou desconsiderando nenhum texto bíblico a respeito da séria oposição de Deus em respeito as práticas homossexuais.

Eu sei bem ler o que está escrito. Mas sabe mais o que eu sei ler? O coração de milhões de pessoas que estão sofrendo com a homossexualidade, inclusive muitos cristãos. Quando olham para declarações como essas, tem ainda mais vontade de estar distante, a maioria acaba fugindo das igrejas por causa desse tipo de afirmação.

Amor, graça, perdão e misericórdia não combinam com boicote


Não quero me prolongar. Apenas quero perguntar: O que estamos boicotando mesmo? 

Se alguém escolhe boicotar qualquer coisa porque julga estar errada, faça isso. No entanto, nunca se utilizando do nome Daquele que resolveu andar na contramão desse sistema religioso, que transforma pessoas tocadas por Deus, em gente que acredita mesmo que está à frente da igreja, mas que serve apenas a uma instituição.

Hoje, não gostaria apenas de expressar uma severa correção em relação a como temos encarado a proclamação do evangelho com frases grosseiras e sem amor qualquer por aqueles que são diferentes de nós, mas a nos olharmos para o espelho e ver como tem sido as nossas atitudes.

Eu sei que  muitas pessoas são sérias demais no tratar do evangelho e contribuem bastante para o Reino de Deus no nosso país, mas eu gostaria de não ter que me decepcionar novamente com os ícones evangélicos, que parecem estar somente preocupados com manobrar as massas inteiras para consumir seus produtos e contribuir cada vez mais para seus projetos particulares de sucesso.

Gostaria mais que a gente, ao invés de restringir a ação da igreja e seus pastores a exercer o papel de fiscalização moral dos outros, que pudéssemos mesmo  trazer essas pessoas para perto da gente e ensiná-los no caminho do arrependimento, da nova esperança, da boa nova do evangelho, que pode nos libertar de muito mais que imaginamos. E que nunca mais digamos que “a verdade imutável” tem a ver tão somente com a nossa percepção pessoal de mundo e fé, mas que nos preocupemos cada dia mais em anunciar a verdade inteira do evangelho que é: Jesus libertando pessoas pelo manifestação do seu amor e perdão, limpando todos pela graça.

Queria mesmo que a igreja um dia pudesse não só se opor a ideologia de gênero como uma espécie de separação de muros entre santos e não-santos, mas que pudéssemos também encaminhar todas as pessoas que vivem de maneira promíscua para o discípulo de Cristo a fim de que todos, homossexuais ou não, pudessem ser livres de uma vez por todas das garras do pecado. Seja ele qual for.

Essa é a nossa luta. Parece clichê, mas: a luta é contra o pecado e não contra os pecadores. Você vai dizer que sabe disso, mas não vive assim.Tom de voz fofinho, rostinho bem maquiado, e sorrisos em cada frases, não é amor. Amor, são atitudes!

Que o Senhor nos ilumine e nos faça voltar-se para Ele novamente porque ao contrário de muitos evangélicos, as misericórdias do Senhor se renovam a cada manhã. Sempre há espaço para o arrependimento no evangelho.

(Que fique claro: Não estamos endossando as políticas de gênero, estamos apenas refletindo sobre como temos reagido frente a isso e repensando o papel da igreja localmente e globalmente. Quando a igreja discorda, a igreja sofre, mas quando ela se cala, sofre mais ainda.)

 

a9sq0a.jpg
Comentários do tipo “não julgueis” estão liberados, mas que tal mantermos uma discussão cheia de amor, graça e inteligência?