O que matou Aylan Kurdi?

Você com certeza já viu essa foto que está rodando a internet nos últimos dias. Na imagem, lá está ele: um menino de três anos com sua camisetinha vermelha e sua bermuda azul, estendido, sem vida, na turística e bem freqüentada praia turca de Ali Hoca Burnu, as mesmas ondas que o mataram, roçavam seu rosto sem expressão. Como alguém sem endereço, ele tinha um nome: Aylan Kurdi. Ao ver a imagem, provavelmente quem é pai ou mãe chora ao pensar que poderia ser o seu; e quem é humano, se revolta diante do absurdo da morte indigna.

Não é novidade que a Europa vive uma crise migratória com enormes proporções. Guerras, pobreza, repressão política e religiosa são alguns dos motivos que fazem milhares de pessoas saírem de seus países em busca de uma vida melhor no continente europeu. Síria, Afeganistão, Iraque e Eritréia estão entre países de origem de toda essa gente desesperada por paz. Alguns, certamente consideram que arriscar a vida em embarcações sem nenhuma infra-estrutura não é pior do que as circunstâncias que eles vivem em seus países.

O pai do menino não pode simplesmente ser tachado de burro pela escolha que tomou em nome da sua família. Era morrer na Síria ou morrer no mar. Considerava a ponta de esperança de conseguir junto de sua família sair disso tudo com vida.

Vemos pessoas, mas não vemos humanidade!

Você sabe por que muitos países da União Europeia ainda relutam em receber essas pessoas desesperadas? Basicamente por dois motivos: 1) por que temem uma crise financeira em seus países; e 2) porque a maior parte desses refugiados são muçulmanos.

O Pr. Ricardo Gondim escreveu, “escangalhados pela fúria tirana, acuados pela miséria e espremidos pelo descaso, eles não ameaçam, só pedem socorro.” É quase desnecessário dizer que nem todo muçulmano é terrorista. É o mesmo que dizer que todo cristão é burro, que dá dinheiro para o pastor. Toda generalização é, por si só, uma tremenda burrice.

Você não está longe disso. O Brasil também tem recebido muitos imigrantes desde o ano passado. São haitianos, africanos, bolivianos, etc. Só a Polícia Federal recebe diariamente mais de 300 pessoas estrangeiras, sendo boa parte das solicitações com pedidos para regularização de permanência. Uma vez aqui, essas pessoas têm acesso à educação de graça, sistemas de saúde, isso sem contar as inúmeras instituições que dão assistência.

É duro pensar que as mesmas pessoas que se emocionam diante da foto do menino sírio, são aquelas que, no Brasil, são contra receber refugiados do Haiti, por exemplo. É duro pensar que as mesmas pessoas que se emocionam diante da foto, são as mesmas que acham que se gasta muito com programas sociais.

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Entre muitas outras definições, ainda gosto de dizer que salvação é perceber que há vida fora do ego. A morte de Aylan deve revolver nosso coração, para que nos despertemos para um profundo senso de omissão e indiferença diante de tantas crianças a nossa volta que perdem a vida literal e não literalmente falando. “Se imagens tão fortes quanto a de um menino sírio morto, arrastado pelas ondas, não mudarem a atitude da Europa frente aos refugiados, o que poderá fazê-lo?”, questionou o jornal britânico The Independent. Diante disso, eu questiono, se a morte desse menino não mudar a nossa atitude frente aos necessitados a nossa volta, o que poderá fazê-lo?

Há quem veja o caso como mais uma prova da não existência de Deus. Nesse caso, só resta a essas pessoas sentar diante das atrocidades e das contingências da vida e ficar esperando a morte, sem esperança, sem utopia, sem força para lutar. Eu ainda vivo a esperar a consumação do Reino de Deus, que será ali e além, para o fim do choro, da lágrima, da aflição.

Que Deus tenha misericórdia de nós e que nós tenhamos misericórdia de todos aqueles que sofrem a nossa volta!