Quando escrever não é só escrever.

 

Sempre achei inspiradora a história do Murillo sobre a escrita em relação ao Rômulo. Acho Murillo, um dos nossos colunistas aqui no MVC, um dos maiores autores para internet do Brasil.

Murillo pega para escrever sobre “azeitona” e seu texto prende atenção, faz os olhos suarem e a gente se sente como numa conversa com um amigo. E algo quase mágico o que ele faz com as palavras.

Somos amigos pessoais. Fiquei algumas vezes na casa dele em finais de semana, e recentemente, após algumas dificuldades, coisas da vida, Murillo passou um tempo lá em casa. E foi muito bom.

Mu me contou sobre a importância do Rômulo, primo dele que veio a falecer num acidente, mas que sempre o havia inspirado a escrever mais e melhor.

Nunca pensei que ia passar por isso, mas aconteceu comigo também.

Sempre achei lindo esse senso de vocação que o Murillo traz consigo, especialmente depois do acontecido com seu primo. Mas confesso que sempre achei que isso se tratava de algo distante da minha vida, que nunca iria experimentar.

Trabalho numa igreja local como obreiro de ministério de evangelismo e de adolescentes. Contávamos com os serviços de uma secretária aqui na nossa comunidade, mais especificamente, na nossa área.

Leda era uma mulher singular. Temia ao Senhor. Não era uma funcionária da igreja, mas era uma das pessoas que fazia a gente acreditar que a igreja é IGREJA.

Lembro-me de ela brincar comigo a cada postagem no MVC que eu deveria trabalhar num projeto de livro, e que ela com certeza o compraria.

Cerca de uns 2 anos atrás ela descobriu um câncer. Saiu de licença, e a nossa convivência diminuiu muito. O ministério trouxe algumas exigências inesperadas, demanda de produção de conteúdo interno, e o MVC, assim como o relacionamento com tantas pessoas que valem a pena, foram sendo deixados de lado.

O que é importante X o que importa

A Leda venceu o primeiro tumor encontrado. Foram sessões de quimioterapia, momentos de oração, visitas ao trabalho. E várias vezes um abraço com uma fala mansa, de compreensão.

E eu sempre tendo de criar uma nova desculpa para não gastar tempo com visitas a Leda. Não orar o tanto que poderia ter orado por ela. E por aí vai.

Sinto-me tão envergonhado que nem sei ao certo em que momento o segundo tumor veio a aparecer. Soube que o câncer havia feito metástase e havia um tumor no cérebro.

No meu ímpeto religioso, colocava os adolescentes da comunidade para orar, semana após semana; correntes de whatsapp e áudios regados a expressões que não eram as mais sinceras.

A Leda faleceu essa semana, e eu me senti um lixo com isso. Talvez seja só o amor que tínhamos um pelo outro. Mas ela me ensinou que o importante vem primeiro do que importa.

A minha oração distante e secreta, não substituiu os abraços que ela precisou.

As mensagens de whatsapp não substituíram os cafés que poderíamos ter tomado.

O importante é estar junto.

Importa orar com alguém? Sim. Mas o abraço é resposta da oração angustiada.

Importa mandar mensagem para alguém? Sim. Mas uma conversa sincera vale bem mais.

Quero voltar a escrever bem. Sim, colocar em palavras o sentimento dos irmãos, pedindo ao Espírito que gere algum tipo de alegria ou vida para quem ler.

Não achei que precisasse de alguém perto de mim, que gostava dos meus textos partir, para entender que isso sempre foi bem mais do que textos.

Espero que minha vocação esteja sendo redescoberta e despertada, e que a gente pare de ser: colunista x seguidor, e nos tornemos amigos.

Que Deus nos ajude.

Em amor e pelo amor.