U2, coração rasgado e esperança inabalável

A ocasião é bastante propícia para a reflexão sobre um dos maiores sucessos de uma lendária banda de rock’n’roll fundada nos anos 70. Propícia também, pois ontem foi o dia internacional do rock, que é celebrado desde 1985 após o megaevento Live Aid realizado em Londres, que reuniu inúmeras bandas de sucesso internacional a fim de arrecadar fundos para o combate a fome na Etiópia.

A que canção que trago faz parte do aclamado álbum ‘The Joshua Tree’ do U2“, que em 2017 completa 30 anos de lançamento. O álbum foi talvez o mais importante da carreira do U2. Ganhador de 2 Grammy Awards dos 22 que a banda possui, bateu todos os recordes de venda da história do grupo até hoje, e colocou o U2 no topo das paradas de sucesso em mais de 20 países.

Outro motivo pelo qual a reflexão é bastante válida, é o simples fato da música ser boa demais e a mensagem parecer ter sido tirada das entranhas de um coração humano que reconhece a esperança apresentada aos homens na cruz de Cristo, e que está completamente desnudado diante da vida e diante de Deus. Sem máscaras, sem subterfúgios, sem mentiras, apenas ele, tal como de fato é, em todas as suas complexidades e paradoxos. É a partir deste contexto que eu te convido a refletir no clássico ‘I Still Haven’t Found What I’m Looking For’ do U2.

A busca

Abertamente classificada como uma música de cunho religioso pela própria banda, a canção foi um dos singles do álbum ‘The Joshua Tree’ e logo ganhou um clipe também no ano de 1987, numa Igreja Batista no bairro do Harlem em Nova York. Ela começa:

I have climbed the highest mountains
(Eu escalei as montanhas mais altas),
I have run through the fields
(Eu corri através dos campos),
Only to be with you
(Só para estar com você),
Only to be with you
(Só para estar com você);
I have run, I have crawled
(Eu corri, rastejei),
I have scaled
(Eu tenho escalado),
These city walls, these city walls
(Estes muros da cidade, estes muros da cidade),
Only to be with you
(Só para estar com você).

Eu descreveria a jornada cantada pelos irlandeses do U2 nesta canção, como sendo uma busca pela plenitude e pela verdade do que é ser realmente humano ao longo dessa nossa passagem finita por esse mundo caído, tal qual descrito pelo Rei Salomão em Provérbios 4.18:

“Mas a vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito.”

Nossa vereda ainda não chegou a brilhar o máximo que pode como de fato há de ser naquele dia perfeito. Estamos ainda no caminho, e ao longo de todo esse processo, por vezes escalamos os mais altos muros, corremos desnorteados pelos mais diversos campos, rastejamos, pulamos, caímos, tudo isso na intenção de apressar o processo, de encontrar o quanto antes aquilo ou aquele que nos levará até o tão esperado dia perfeito.

Contudo, talvez o grande desafio destes primeiros versos da canção, seja o fato de que eles nos chamam a entender que ainda que encontremos o caminho que nos levará até lá, esse processo nem sempre estará de acordo com as nossas vontades, e muitas das vezes não fará sentido para nós, para nossa forma de compreender a vida, o mundo e os sofrimentos que neles existem. Inúmeros serão os muros, os campos e as montanhas a serem percorridos e escalados, e ainda assim é possível que, não poucas vezes, ou talvez até mesmo em todas as vezes, cheguemos à conclusão de que ainda não encontramos o que estamos procurando.

O valor de um coração rasgado

E esse processo é doloroso, instável, perigoso, e pode nos revelar vez ou outra, uma imagem no espelho para a qual certamente teremos medo e vergonha de olhar. É basicamente sobre isso que tratam os versos 3 e 4 que dizem:

I have kissed honey lips
(Eu beijei lábios de mel),
Felt the healing in her fingertips
(Senti a cura na ponta de seus dedos),
It burned like fire
(Queimava como fogo),
This burning desire
(Este desejo ardente);
I have spoken with the tongue of angels
(Eu falei as línguas dos anjos),
I have held the hand of the devil
(Eu segurei as mãos do demônio),
It was warm in the night
(Estava aquela noite),
I was cold as a stone
(E eu frio como uma pedra).

Toda essa confissão escancarada da realidade tortuosa do coração e da jornada humana me chama muito a atenção nas canções do U2, e em especial aqui em ‘Still’. Ela me faz lembrar a realidade e a honestidade das histórias dramáticas dos homens e mulheres descritos na Bíblia Sagrada, especialmente as confissões contidas nos Salmos e na cíclica história de quedas e ascensões do povo de Israel ao longo de todo Antigo Testamento.

Talvez pudéssemos aprender aqui que, na caminhada com o Senhor, honestidade e verdade são requisitos indispensáveis. Que toda capa de religiosidade heroica e irretocável jamais chamará a atenção do Criador. Primeiro porque é uma fraude, ninguém é perfeito a ponto de não ter sérios pecados e graves mazelas internas a serem colocadas na mesa diante do Pai. Segundo porque foi o próprio Deus quem disse que um coração contrito e quebrantado (não altivo), Ele não desprezará (Sl 51.17). E terceiro porque a única forma de nos aproximarmos do Senhor é estando escondidos na graça e na obra de Seu Filho, o Cristo Redentor dos homens.

Quantas vezes ao longo da caminhada beijamos doces lábios de mel, que nos deixam, porém, com amargo gosto de frustração e pecado na boca? Quantas vezes buscamos, desejamos e até mesmo sentimos a cura para nossas feridas em outras coisas ou pessoas que não o Senhor? E quando a vida se transforma naquela gangorra constante onde hora estamos falando a língua dos anjos, hora estamos de mãos dadas com o demônio?

Entretanto, pela graça de Deus, mesmo através das noites aquecidas pela desgraça do pecado, nosso coração preservado pelo Senhor em algum lugar permanece frio, consciente da loucura que está cometendo e da perversidade do lugar e das pessoas com quem está caminhando. Reconhecer a pobreza que habita nosso próprio coração é o primeiro passo para a felicidade segundo o próprio Jesus em seu mais famoso sermão (Mt 5.3).

A esperança no sangue

Por fim, chegamos ao momento onde os irlandeses acenam com a grande esperança. A maior de todas elas: o estabelecimento do Reino. E eles dizem assim em um belíssimo verso 5:

I believe in the Kingdom come
(Eu acredito na vinda do Reino),
Then all the colors will
(Lá todas as cores irão),
Bleed into one, bleed into one
(Sangrar numa só, sangrar numa só),
Oh yes, I’m still running
(Oh sim, eu ainda estou correndo),
You broke the bonds and you loosed the chains
(Você soltou as amarras e quebrou as correntes),
You carried the cross (Você carregou a cruz),
And all my shame, All my shame
(E toda a minha vergonha, toda minha vergonha),
You know I believe it
(Você sabe que eu acredito nisso),
But I still haven’t found what I’m looking for
(Mas eu ainda não encontrei o que estou procurando).

De tirar o fôlego, não?! O que temos diante de nós é a explanação da obra da cruz. E é exatamente por causa dela que temos a esperança da vinda do Reino, onde todas as cores sangrarão numa só, e finalmente encontraremos as respostas para as inúmeras perguntas que tanto nos tiram a paz. Finalmente encontraremos o amor e o abraço que tanto buscamos, e finalmente nos depararemos com a justiça que tanto ansiamos.

Que simbólico eles usarem o verbo sangrar! É justamente por causa do sangue do Filho de Deus vertido no calvário cobrindo toda a vergonha do nosso pecado, que um dia teremos a chance de finalmente nos realizar. É por causa desse sangue que temos a certeza que nossa vereda brilhará como aurora até chegar a ser dia perfeito. É por causa desse sangue, desse precioso sangue, que finalmente encontraremos aquilo que tanto estamos procurando.

Mas e por hora? Por hora vemos em parte. Por hora seguimos caminhando na certeza de que Ele carregou a nossa cruz, soltou nossas amarras e quebrou nossas correntes, para que um dia, finalmente, possamos ver o todo. Para que um dia possamos declarar: sim! Eu encontrei o que estava procurando!

E você, pelo que anda procurando?

Aqui você tem a música em uma recente e rara performance do U2 exatamente como gravada na Igreja Batista do Harlem em 1987, no programa americano Jimmy Kimmel Live. Assista ao vídeo!