Um partido político para os cristãos

Na Grécia antiga nasce a polis. De polis temos “política”. A política é o cuidado com a polis, a cidade-estado. Com o início do período eleitoral, nós, brasileiros, passamos a ser bombardeados por informações políticas vindas das mais diferentes partes. Para os cristãos, especialmente àqueles que têm a intenção de avançar na vida cristã, pode tornar-se confuso o processo de escolha de candidatos. É por isso que nas próximas semanas, pretendo fazer aqui no blog uma série que busca nortear o processo de decisão de candidatos, obviamente, com base na Bíblia e nos valores do reino de Deus, isso sem deixar de levar em conta as mais variadas nuances das ciências sociais e políticas.

Em primeiro lugar, penso que o cuidado com a polis deve ser prioridade para os cristãos. A Bíblia diz que “os mais altos céus pertencem ao Senhor, mas a terra ele a confiou ao homem” (Salmo 115:16). Isso significa dizer que a responsabilidade de gestão dos recursos da terra cabe ao homem, sendo essa responsabilidade outorgada pelo próprio Deus. Somos nós quem decidimos como faremos a distribuição da renda, das terras e dos demais recursos que Deus nos deu.

Dizer “meu reino não é dessa terra” pode transparecer uma desculpa para não se envolver e não se engajar na luta por uma sociedade mais justa e democrática.

Em nossos dias, fica cada vez mais difícil falar em ideologia partidária, onde política se tornou apenas um meio orquestrado pelo poder econômico. Ver, como vi recentemente, pastores pedindo votos para candidatos das mais diversas ideologias partidárias, me faz perguntar a mim mesmo não “qual proposta desse candidato bate com os valores do reino de Deus?” mas sim “quanto será que esse pastor está ganhando para aí estar pedindo voto?”.

É por isso que, enquanto cristãos, precisamos estar atentos, com opiniões fortes e bem definidas, propondo políticas públicas de qualidade, que visem o bem comum e os direitos civis das minorias. Um partido político cristão seria aquele que acima de tudo, iria propor  justa distribuição de renda, atenção aos necessitados, salvação para aqueles que estão perdidos. O reino de Deus é essa causa comunitária, onde o pão não é meu, mas nosso, o perdão não é meu, mas nosso e o Pai não é apenas meu, mas nosso.

A Bíblia toda fala sobre política. Os profetas de Israel ficaram roucos de tanto gritar para o que o povo de Deus parasse de pensar apenas em si mesmo e passasse a pleitear pelo direito do órfão, da viúva e do estrangeiro. Veja o que diz a profecia de Isaías:

Chega de joguinhos religiosos! Não suporto mais essa encenação: Conferências mensais, agenda sabática, encontros especiais, reuniões, reuniões e mais reuniões – não aguento ouvir falar em reunião! São reuniões para isto, reuniões para aquilo. Chega de reuniões! Vocês me cansaram! Estou cansado de religião, de tanta religião, enquanto vocês continuam pecando. Quando fizerem a próxima oração coletiva, eu vou olhar para o outro lado. Não importa se oram alto, por muito tempo ou com frequência; eu não vou dar ouvidos. Sabem por quê? Porque vocês têm trucidado pessoas, e suas mãos estão cheias de sangue. Vão para casa e se lavem! Limpem essa sujeira toda. Esfreguem a vida até que saiam suas maldades, para que eu não seja mais obrigado a olhar para elas. Digam “não” para o mal. Aprendam a fazer o bem. Trabalhem pela justiça. Ajudem os oprimidos e marginalizados. Façam alguma coisa pelos sem-teto. Levantem a voz em favor dos indefesos. (Isaías 1:13-17 – Versão A Mensagem)

O fato do candidato se declarar cristão não deve nunca bastar para ganhar o voto dos cristãos. De fato, é melhor votar em um candidato não cristão que preza pelo bem comum do que em um cristão que nem sequer imagina quais são os valores do reino de Deus. O capítulo 2 de Romanos fala a respeito dos não convertidos que ainda assim têm a lei de Deus impressa no coração.

Um de nossos presidenciáveis se diz pastor evangélico e enfatiza que em seu governo tudo será via meritocracia. Um governo que exalta a meritocracia deve ser rejeitado, pois o mérito é o oposto da graça. Tudo o que temos e recebemos é  de graça e pela graça. Dizer “eu vou votar em Fulano” sem ter lido o programa de governo, assistido a propaganda eleitoral e sem ter analisado as propostas é uma bela declaração de analfabetismo político. E o analfabetismo político é o que faz a sociedade se transformar no que é. É por isso que encerro esse primeiro texto da série com as sempre pertinentes palavras de Bertolt Brecht sobre o analfabetismo político, orando para que nós, cristãos, jamais sejamos como o analfabeto político das palavras abaixo:

O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.