Antissociais – Por Fernanda Paiva

Se ele fosse uma foto do Instagram… eu teria curtido.

Eu estava com a cabeça reclinada na janela do ônibus. Dezenas de rostos passavam do lado de fora. Nenhum que eu fosse lembrar 2 segundos depois. Nos fones de ouvido alguma música de Leeland me levava a fazer dos meus dedos indicadores baquetas imaginárias no banco da frente. Em algum ponto da avenida mais movimentada da cidade senti um perfume que nunca senti antes – e olhe que de perfume eu entendo. Vinha de dentro, vinha do meu lado. Virei para saber do que – ou de quem – se tratava.

Era um rapaz apressado que sentou-se ao meu lado meio estabanado com sua mochila e papéis na mão. Ele guardou os papéis na mochila e continuou segurando o livro. Sem ler. Apenas segurando. Ninguém segura um livro à toa. Se não está bem guardado, é porque está ali para ser ostentado. Como uma jóia de valor, uma chave de carro importado ou uma roupa de marca. Só que para chamar a atenção de outro público. Diminuí o volume da música – o motivo eu não sei – e observei melhor.

O exemplar de “O Remorso de Baltazar Serapião” estava prestes a cair quando ele precisou tirar a gravata e arregaçar as mangas de sua camisa social rosa. A propósito… homens que usam roupas cor-de-rosa estão no caminho certo. Além do perfume, do livro e da camisa cor-de-rosa, ele usava óculos de grau daqueles estilosos e um brinco de argola preto. Tinha pouco cabelo e aparentava uns 25 ou 26 anos. Tinha cara de publicitário. Mas publicitário tem que usar all star e camiseta. Então logo descartei a hipótese.

Tirei um dos fones de ouvido – o motivo eu não sei – e continuei olhando para a janela, fingindo inutilmente alguma concentração na paisagem. Queria perguntar sobre o livro. Queria contar quais eu estava lendo. Quis que ele perguntasse o que raios eu estava ouvindo. E, por sua aparência, ele ia dizer que curte algumas daquelas bandas que ninguém nunca ouviu falar. Mas chegou a hora de eu descer.

– Licença!
– Vai descer?
– Sim.

E fui-me.

Pensei que se ele fosse uma foto do Instagram eu teria curtido. Se fosse um post do Facebook eu teria compartilhado. Nem se fosse aquele post irrelevante, que você acha bacana por um momento e nunca mais volta a pensar naquilo. Mas ele estava ali; humano, gente, carne e osso. Eu sequer olhei de lado, mesmo achando que dali sairia alguma conversa divertida e “um até breve” no final (ainda que o “breve” fosse um “nunca mais”).

Poderia contar várias histórias de pessoas que passaram por mim e deviam ser interessantes. Teve a senhora que parecia ter muita história dos anos 60 pra contar. O estudante de ensino médio para me relembrar os tempos de vestibular. A menina do cabelo afro que tinha cara de simpática e mora perto da minha casa.

É. Acho que estamos ficando antissociais.

 

Extraído do blog “Um pop de tudo“, de Fernanda Paiva.