Aprendiz de amigo

Escrever sobre amizade pra mim é um grande desafio. Quando decidimos em nossa reunião de pauta que iríamos dedicar esta semana ao tema, logo pensei: quem sou eu pra vir aqui no MVC escrever sobre amizade para alguém?

Não sou exemplo de bom amigo. Sofro da “Síndrome da Inversão de Prioridades” na relação com meus amigos. Muitas vezes construo relacionamentos focados nas tarefas a serem cumpridas e não nas pessoas a serem amadas. Inverter as coisas dessa forma é perigoso, pois, quando acabam as tarefas, acaba a relação. Dia desses um deles me disse: “meu amigo, fiquemos atentos para a performance não sobrepujar o afeto, de modo que as tarefas não ganhem primazia sobre as pessoas”. Ele matou a charada! Sofro disso e com isso.

Minhas formas de comunicar afeto e apreço ainda são falhas e rasas; meu coração ainda é seco e duro e eu ainda deixo para amanhã aquilo que poderia fazer hoje. Amizades verdadeiras levam tempo para consolidar-se, exigem esforço de ambas as partes. Por vezes, elas machucam, desgastam-se e precisam ser sempre regadas. Quando nos furtamos dessas práticas, as coisas acabam ficando bem mais complicadas do que poderiam ser.

Desculpem-me pela franqueza das confissões, mas dizem que o primeiro passo para a cura é reconhecer a doença. Talvez minhas dificuldades encontrem eco em alguns de vocês e possam fazer que aprendamos juntos o quanto ainda temos de caminhar na direção de Cristo por amor a nossos amigos.

É interessante quando você descobre no meio desse difícil processo de autoconhecimento que Jesus te dá de presente, pessoas escolhidas por Ele a dedo, as quais você vai poder chamar de amigas sem medo de errar. Gente que, independentemente de seus defeitos e traumas, vai amá-lo e ser luz para o seu caminho. Gente que, em vez de ridicularizar sua fé, levará você a estar mais perto de Deus, ser mais temente a Ele e buscar conhecer mais dEle. Gente que vai preferir o menos com você ao mais sem você. Gente que vai entender seu silêncio e estender mãos amigas ao invés de palavras ferinas. Os amigos de verdade, ainda que distantes, estarão sempre do seu lado. Você logo vai perceber que a coisa tem muito pouco a ver com geografia e muito mais a ver com a maneira de entender a vida e compreender o evangelho. Na minha curta experiência, tenho notado que proximidade nem sempre significa intimidade e intimidade nem sempre significa proximidade. Gosto muito da canção “Amizade Sincera” escrita pelo Renato Teixeira. Sem dúvida, é uma das mais belas celebrações à amizade do cancioneiro popular brasileiro. Uma das estrofes da canção diz assim: “os verdadeiros amigos, do peito, de fé, os melhores amigos, não trazem dentro da boca palavras fingidas ou falsas histórias, sabem entender o silêncio e manter a presença mesmo quando ausentes, por isso mesmo apesar de tão raros, não há nada melhor do que um grande amigo”. Quanta beleza! Quanta verdade! Amigos sabem entender o silêncio e manter a presença mesmo quando ausentes.

Em um mundo onde todos estão correndo, onde a agenda sempre lotada é sinal de status e o “tô na correria” é louvado mais do que nunca, dar atenção às pessoas é uma prática em extinção. Temo pelas amizades sinceras, temo pelo olho no olho, pelo abraço, pelo aperto de mão, pelo sorriso. Temo que nos tornemos pessoas ainda mais individualistas e independentes do que já nos tornamos. Isso tem corroído as relações humanas e acertado em cheio a construção de amizades sólidas que contribuem para o desenvolvimento da sociedade.

E, se para aprendermos um pouco mais sobre amizade, olhássemos para Jesus? O Filho Amado do Pai, que, por meio dele, todo Universo se fez e sobre o qual todos nós vivemos, movemo-nos e existimos. O Deus que em meio a toda a Sua magnificência e santidade fez-se homem e quis ser chamado de amigo pelos homens. Onde mais aprenderíamos lição tão bela e significativa sobre amizade que não observando a Jesus? Jesus era o cara com o qual todos queriam estar e falar. Fico imaginando o desgaste, tanto físico como emocional, que Ele não sentia em certos momentos por ter de dar atenção a toda aquela gente. Quantas vezes Ele não deve ter sentido vontade de ficar sozinho um pouco, repousando seu corpo cansado de tantas atividades, longe de todo aquele tumulto com o qual, todos os dias, ele se deparava? Mas Ele se manteve firme, pois sabia que tinha uma missão a cumprir, sabia que tinha um Pai a honrar. Jesus não mediu esforço algum para que o plano que Ele tinha de fazer de nós Seus amigos por toda a eternidade, para a glória de Seu Pai, fosse cumprido na sua totalidade!

Com Jesus podemos aprender que aquilo que estamos dispostos a fazer pelos amigos diz muito sobre aquilo que estamos dispostos a fazer pelo Pai. Jesus disse que todo aquele que viesse a Ele jamais seria lançado fora. A Bíblia não apresenta nenhuma linha em que alguém fale com Jesus sem que Ele não tenha parado para escutar. Que constatação poderosa! Que exemplo perfeito para os dias de hoje!

A quantas anda nossa relação com nossos amigos? Temos parado para escutá-los? Temos buscado construir relações fundamentadas no amor para a glória do Pai? O Rei do Universo jamais foi indiferente a qualquer um dos homens. Quem somos nós para, com tamanha petulância, tratarmos com indiferença aqueles a quem chamamos de amigos?

Perdoa-nos, Senhor! Ajude-nos a ser como Teu Filho, que seja Ele nossa inspiração maior e que lutemos todos os dias contra nossos instintos egoístas que nos fazem desonrar a Ti e, também, a nossos amigos. Que a esperança venha e a amizade vença!

Que Deus nos alcance!