Epístola aos amigos que não se foram

Prezados amigos, como eu não sou capaz de enumerar todos, eu vou chamá-los de José, pois com um nome próprio represento a intimidade que gostaria de demonstrar, mas que não é possível no momento.

Outrora, eu via José entrando pela viga aberta da minha vida. Podia ter impedido, podia ter evitado, mas não, reconheci que a partir dali não seria apenas uma nova amizade, mas uma fraternidade integral.

Momentos bons sobressaíram-se aos pequenos momentos de desentendimento. Nunca fiz questão de expressar a falta de paciência, as divergências de pensamento e as muitas vezes que enfurecido fiquei contigo. Sempre entendi que o que nos deixava próximos era a distância saudosa. Lógica inversa, eu sei.

Ousei poucas vezes dizer o quanto o amo, encontrei-o raramente em situações inconsoláveis, já eu, por alguns momentos, internei-me em um vazio humano profundo e você foi lá me buscar pelas orelhas. Você teve a sensibilidade de me respeitar, teve a coragem de me resgatar. Agradeço.

Peguei-me muitas vezes dizendo a terceiros o quanto tu eras peculiar. Surpreendi-me como eu era capaz de causar inveja naqueles que não tinham amigos como você. Passei a me vangloriar por merecer a sua companhia.

Calei-me quando precisava te defender, briguei quando precisava me calar. Passei tardes solitárias, quando tudo que precisava era te dar um telefonema mesmo sem assunto.

Senti saudades que me comoveram, como a que sinto agora e que por tantas vezes não pude lhe olhar nos olhos. Produzi cenários que simulassem momentos contigo só para que sua memória permanecesse ali. Suspirei inúmeras vezes ao te rever. Abracei não como se fosse a última vez, mas como se fosse a única.

Hoje penso que nada foi tão legal que não se possa repetir. Muitos se foram, não resistiram ao tempo, a saudade, ao local, mas você ficou. Nem um “obrigado” sincero corresponderia ao que sinto. Nem um presente formidável expressaria a recompensa de ser teu amigo. Precisarei de anos para reconhecer sua amizade, tenha paciência comigo. Choro, não de emoção, mas de nostalgia. Vocês são cinco ou seis, mas sabem bem aproveitar os efusivos abraços.

Preciso de você do meu lado, sempre!