O dia que decidi te amar

“Cartas de amor são escritas não para dar notícias, não para contar nada, mas para que mãos separadas se toquem ao tocarem a mesma folha de papel.” (Rubem Alves)

Esse sentimentalismo romântico é muito brega. Mas também dizia o Rubem Alves que: “…se não fosse brega não seria carta de amor”.

Lembro-me bem e com carinho da sensação quando, no início, nos percebemos apaixonados por alguém que talvez ainda nem estivesse na mesma situação. Lembro-me da adrenalina num simples gesto, num simples toque, olhar ou num papo despretensioso jogado fora. Lembro também da expectativa de um reencontro mesmo que esse sentimento tomasse conta apenas de mim.

Ah! Como é bom estar apaixonado.

E quando finalmente somos correspondidos e o tempo parece uma eternidade quando não estamos juntos, suspeitamos até que tenha recebido a missão de conspirar contra nós. As mãos não conseguem ficar separadas e aquelas borboletas no estômago insistem em aparecer em cada beijo. E o perfume? Basta que toque qualquer coisa pra garantir longos dias de lembranças e expectativas com o coração sempre acelerado.

Ah! Como é bom sentir o amor.

Estou casado a quase sete anos com a Larissa e gosto de pensar que conseguimos colher bons frutos de todo este processo que envolve as emoções, os sentimentos, o carinho mútuo, as declarações de amor e o maior destes frutos é a nossa filhota Marcela. Sei que você já ouviu a expressão: “Mas e quando a paixão acaba?”, ou “…e quando não “sentirmos” mais o amor?”. Pois é, o que fazer?

Volta e meia me pego vagando em pensamentos a respeito do sentido da vida e de tudo o que permeia esta louca realidade e olhando pro evangelho segundo João no capítulo 15, vemos ali um paralelo entre Jesus e uma videira e pensamos: “Puxa, não é que essa história casa direitinho com a história da Redenção e da aceitação pela Graça”, podemos até pensar: “Jesus sabia perceber bem as coisas ao seu redor e usá-las como bom exemplo”. Vou mais adiante pra dizer que não é Jesus que fala sobre a videira, mas a videira que fala sobre Jesus. A videira é apenas um dos “tipos” de Cristo na história.

E o que isso tem a ver com namoro, sentimentos e amor?

A bíblia trata a volta do Cristo como “As bodas do Cordeiro”. É o casamento, o ápice e a concretização de uma história que começou lá trás com todos aqueles sentimentos. Nosso namoro fala de Cristo e aponta pra uma realidade permanente. É necessário sim passar por todos estes vultuosos sentimentos que arrebatam até a nossa razão, ficamos meio abobalhados, cegos e surdos ao cenário que nos rodeia, parecemos flutuar, mas uma hora os percalços batem na porta e a divergência na maneira de lidar com as situações vai minimizando o amor “sentimento” e é aí que somos indagados a respeito de decidirmos ou não verdadeiramente amar.

Decidir amar?

Olhando para o Mestre aprendemos que o ato de amar não está restrito aos sentimentos. Fosse assim Jesus teria posto um basta em todo o caminho que percorreu até a cruz. Porque meus amigos, ninguém tem bons sentimentos sendo cuspido, humilhado, sofrendo a tortura de ser chicoteado e finalmente crucificado. E isso nem era o pior, Ele sabia que por conta do Pecado da humanidade assumido por Ele no madeiro, Sua ligação com o Pai seria aviltada. Mas decidiu ir até o fim, por Amor. Creio que quando os discípulos decidiram seguir a Jesus não imaginavam o que estaria por vir. Mas passaram por todo aquele momento de intensa euforia de estar ao lado, não querer deixar um segundo sequer e o Mestre correspondeu a todas as etapas.

Todo esse papo parece estar distante dos jovens corações que se encontraram a pouco!

Devemos desfrutar sim dos momentos mais marcantes de uma vida a dois, chorar por bobagens, mandar cartas de próprio punho, fazer surpresas, beijar, abraçar, se deslumbrar com o perfume, mas só devemos estar dispostos(as) a levar adiante essa relação com alguém que demonstre querer avançar do amor “sentimento” para a amor “decisão”. E a todos que decidiram amar, como é o meu caso e de minha eterna namorada, olhe no retrovisor e tente resgatar aqueles momentos mais bobos e bregas tendo em mente que aconteça o que acontecer, você já é o outro e o outro já é você. (Não é que parece de novo com Jesus?)

Amo minha esposa como se não fosse alguém que estivesse fora de mim. E nesse passo continuo aprendendo com Jesus a lavar os seus pés não somente nos dias brandos, mas também e especialmente naqueles que o vento quase nos tira do chão.

Então decida amar e amará pra sempre.

NEle.