Sozinho na igreja de mil membros

Ter relacionamentos reais e profundos parece ser o nosso grande desafio hoje. Há pessoas que aparentam lidar bem com isso porque o fazem de forma natural e espontânea, mas na real, boa parte não consegue contar nos dedos de uma mão os amigos que pode contar numa hora difícil. Há também os que, por timidez ou algum complexo de inferioridade, procuram o distanciamento. O fim disso é a fulga do convívio social e o contentamento com relacionamentos superficiais como os de internet. Eu já vivi os dois extremos e posso dizer que, sendo essa pessoa mais desenrolada ou aquela mais introvertida, você pode estar só, mesmo numa igreja de mil membros.

Viver de boa com todo mundo é até fácil. Basta estar por dentro dos resultados dos últimos jogos do Brasileirão, estar em dia com as séries da Netflix ou por dentro dos acontecimentos que ocorreram durante a semana, isso já seria o suficiente para manter aquele bom relacionamento raso dominical antes e após os cultos. Você será aquela pessoa gente boa que todo mundo procura pra dar um abraço e talvez até lhe chamem de amigo, mas sua relação com eles não passará disso. Também não é saudável fugir das interações sociais nem se privar dos novos vínculos. E você nem precisa se esconder para se isolar, isso pode ocorrer até mesmo dentro de uma igreja. Isso porque a maioria das nossas igrejas são movidas a calendário. Seus membros estão tão ocupados com atividades que não lhes sobra tempo para viver os relacionamentos com qualidade. Não era o ativismo que levava os cristãos da igreja primitiva para o templo ou qualquer outro lugar, mas o desejo de estar junto para aprofundar mais a fé e crescer em Jesus. As coisas se inverteram hoje.

Enquanto essa subcultura gospel, que não tem ajudado a transformar a vida de quase ninguém, puxa os crentes pra dentro das igrejas a fim de os isolar do mundo, Deus chama sua Igreja para fora a fim de transformar vidas e a sociedade, como instrumentos Dele na realização dos propósitos do seu Reino.

Relacionamentos fazem parte do ser humano

Nós somos seres relacionais. É inerente ao ser humano fazer parte de um grupo. Isso porque fomos criados à imagem e semelhança de um Deus que, antes te tudo, vive na trindade uma comunhão única e intensa. Se essa comunhão toda brota de Deus, o primeiro passo para se ter relacionamentos reais e profundos com os outros é buscar um relacionamento real e profundo com Deus. Se o desejo do Pai é nos tornar a cada dia mais parecidos com o seu primogênito, basta olhar para nossos relacionamentos e ver que estamos bem distantes do modelo proposto.

À medida em que eu me relaciono com Deus, minha visão a respeito do outro muda completamente. Isso me leva a outro ponto.

Deus não descarta ninguém. Tem cristão que não engole o fato do amor do Pai estar destinado a todos, até mesmo aquela turma que você odeia (ou não simpatiza, pra não ficar tão pesado) ou aquelas pessoas que pensam diferente de você. Não foram poucas as vezes que reservei um tempo para orar por fulano ou sicrano, a fim de que Deus mudasse seus corações e, no meio da oração, Deus me levou a orar por mim, para que eu aprendesse a lidar com as diferenças que haviam entre eu e elas, e assim fosse uma ponte entre elas e Ele. Daí entendi que a qualidade dos nossos relacionamentos está diretamente ligada à qualidade da nossa relação com Deus.

Não há relacionamentos verdadeiros sem um preço a ser pago.

Relacionamentos reais e profundos são aqueles onde você se expõe, mostra tudo de si e também aceita ver tudo da outra pessoa, seja algo bom ou ruim. Especialmente em tempos onde tudo que precisa ser cultivado deixou de ser interessante, nossa missão nesse processo se torna ainda mais relevante. Assim como uma árvore necessita ser intencionalmente regada e cuidada para que cresça saudável e com raízes profundas, assim devem ser os nossos relacionamentos. Se você olhar ao redor verá a quantidade de gente carente de relacionamentos assim.

Se você tem dificuldade de se relacionar, comece buscando um relacionamento íntimo e sincero com Deus. Haverá tanto de Jesus em você que onde você tiver dificuldade de amar o amor Dele suprirá. Se não existir perdão em você, usará o perdão Dele. Se não souber como se aproximar daquela pessoa, Deus criará afinidades e oportunidades onde você menos imaginar. No fim, é isso que o Pai deseja: olhar diariamente pra nós e ver o quanto do seu Filho há em nós, no nosso falar, no nosso pensar, na nossa maneira de tratar as pessoas, nos nossos relacionamentos.

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